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Resenha: Aura (2020)

Álbum de IO Earth

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Um álbum poderoso e emocionalmente comovente

Por: Tiago Meneses

24/09/2020

Antes mesmo do seu lançamento eu já esperava muito deste disco, algumas declarações do guitarrista Dave Cureton afirmando que a banda mostraria o seu lado mais suave me deixou interessado, e de fato ele não mentiu, o que não faltam são músicas evocativas e melódicas durante todo o álbum. Porém, isso não quer dizer que a música não possa aumentar de intensidade, ficando mais estimulante a animada. A mistura de vocais masculinos e femininos está excelente, além de ótimas seções instrumentais estendidas, com destaque maior para os belos trabalhos de piano e guitarra. Certamente e com todos os méritos merece aparecer em qualquer lista de melhores discos de rock progressivo do ano. 

O disco começa com a faixa título, “Aura”. A música traz grande força ambiental e atua de uma forma que não poderia ser melhor para abrir um disco igual a esse, introduzindo fragmentos musicais inclusive que podem ser notados mais tarde no desenvolver do disco. De maior destaque com certeza é a seção intermediária que consiste em reflexões silenciosas sobre uma guitarra elétrica e um sintetizador onírico ao fundo. Bastante floydiano o momento, principalmente pela guitarra nitidamente influenciada pelo estilo de David Gilmour. 

“Waterfall” logo no seu início mostra que estamos diante de outra música de forte sensação ambiental, incluindo algumas vocalizações femininas, até que há uma mudança de humor onde a entrada repentina da voz de Rosanna Lefreve acompanhada apenas por acordes calorosos de piano é o centro da música por um tempo. Todo o desenvolvimento da faixa é sensacional e consegue atingir uma beleza extraordinária em seu clímax antes de se encaminhar para o seu fim com piano, violino e flauta. Não seria nenhum exagero de afirmar que somente esta música já vale o álbum. 

“Breathe” mostra outra face do disco até o momento, pois se com as duas primeiras faixas a sonoridade era imbuída de uma grande sensação de paz e beleza, aqui isso desaparece um pouco enquanto trombetas que parecem distantes soam sobre uma paisagem sonora velada para dar uma sensação de desolação absoluta. Inclusive acho essa parte a mais interessante da música. No meio o som torna-se algo extremamente ameaçador, com algumas palavras misteriosas sendo sussurradas ao fundo, incluindo a frase “you’ll feel no pain”, que significa, “você não sentirá dor”, algo difícil de acreditar que vá acontecer pela forma que as palavras são ditas.  

“Resonance”  é um som mais curto, com apenas três minutos e que eu acho mais interessante considera-la como uma introdução para a faixa seguinte. Traz belas vocalizações femininas, notas espaçadas de sintetizadores e um final de sonoridade épica com um leve acréscimo de tenor lírico. “Circle” começa como um piano criando uma atmosfera espacial que logo ganha companhia de um vocal masculino quase falado, antes de todo o restante da banda entrar em ação, agora também trazendo a voz de Rosanna. A música então entra em um estranho, mas belo espaço gótico, sendo este, logo em seguida substituído novamente por uma linha musical executada por toda a banda, além de vocais femininos girando em torno dos masculinos, sendo que cantam juntos em alguns versos. 

“Shadows” não é pra ser vista apenas como uma música, pois também soa puro cinema, onde a banda explora a decadência e a devastação humana. Tem uma introdução ao piano que logo é seguida por violino. Há uma exploração nesta música de sons religiosos e progressões minimalistas com melodia extremamente profunda, boa até mesmo para fazer uma meditação. A instrumentação segue sempre em uma crescente lenta e relaxante, apesar do aumento do som. 

“Resonance II” novamente é um som mais curto e que acho mais interessante encará-lo como uma introdução para a faixa que encerra o disco. Um momento simples e uma boa paisagem criada por barulho de chuva, piano misterioso antes que os vocais masculinos apareçam. Bastante simples, mas acontece em um bom momento do disco. “The Rain” é o épico de dezoito minutos e que finaliza Aura, uma faixa que aparentemente pretende refletir o clima de estar sentado na janela de uma casa nas montanhas em um Domingo de clima obscuro e úmido, contemplando a vida enquanto que refletimos sobre aqueles que infelizmente não se encontram mais entre nós. Seu desenvolvimento é um pouco lento, avançando com cautela enquanto os vocais de Cureton e Lefevre vão se intercalando com enorme eficácia. Novamente as guitarras possuem toque gilmourianos encantadores. Há também espaços para um belíssimo trabalho de flauta com uma ótima bateria metronômica de fundo, elevação sinfônica e violão muito bem construído – que após de ficar de maneira isolada da música, dar lugar ao momento mais arrepiante e sinfônico da faixa. Após este clímax instrumental a tensão se desfaz com acordes de piano e algumas curtas mensagens dos dois vocalistas. Nos quase quatro minutos restantes da faixa, aparece primeiro – e isoladamente -um leve toque de barulho de chuva que depois é substituído por canto de pássaros antes que o disco chegue ao fim. 

Aura é certamente um maravilhoso seguimento do excelente Solitude e uma valiosa adição ao catálogo banda.  Um álbum poderoso e emocionalmente comovente que eu afirmo – de novo - tranquilamente que será forte candidato a um dos melhores álbuns de rock progressivo do ano. Só posso dizer mais uma coisa, se você ainda não conhece a banda, Aura só mostra com mais clareza o quanto que você está perdendo.

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