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Resenha: The Hurting (1983)

Álbum de Tears for Fears

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Um álbum de estreia acima da média

Autor: Débora Arruda Jacó

21/09/2020

The Hurting (1983) é o primeiro álbum de estúdio do Tears for Fears. The Hurting conseguiu alcançar o 1º lugar nas paradas musicais da Grã-Bretanha, tendo ganhado discos de ouro e platina. Nada mau para um disco de estreia!  A jovem dupla, formada por Roland Orzabal e Curt Smith realizou um trabalho bem interessante, tendo como influencia a teoria do “grito primal”, do psiquiatra/psicanalista Arthur Janov e no quesito som, apresenta uma sonoridade eletrônica com guitarras e sintetizadores. Contribuíram muito para a realização desse álbum, os músicos Ian Stanley (teclado e sintetizador) e Manny Elias (bateria).  Quando foi lançado, não foi sucesso mundial, porém, teve os três primeiros singles da carreira do grupo no Reino Unido: “Mad World”, “Change” e “Pale Shelter”. Vamos aos comentários por faixas.

A faixa “The Hurting” inicia o álbum: eletrônica, com teclados e sintetizadores é uma música forte – Roland realiza um bom trabalho com sua guitarra que acompanha muito bem a sonoridade eletrônica. O cantor interpreta com emoção, a letra carregada de angústia e mágoa, como diz o próprio título. A segunda faixa é “Mad World”, interpretada por Curt Smith. A letra descreve o sentimento de vazio de uma pessoa (ou garoto, que supostamente é o Roland Orzabal que teve uma infância traumática). Diante da letra que descreve sentimentos de um jovem que não tem a atenção de ninguém, “Mad World” apresenta arranjos eletrônicos, bem amparados pela bateria “pulsante”, que torna a faixa “dançável”. Gary Jules fez uma versão em 2001, mas sinceramente: se é para escutar outra versão prefiro a realizada por Diva Smith (filha do Curt Smith) e o próprio Curt Smith, que está disponibilizada no Youtube.
A terceira faixa é uma das minhas preferidas: “Pale Shelter”, clássica e mais um belo momento de Curt, que estava em uma fase abençoada aqui. A letra é de Roland que mais uma vez, faz alusão à angústia e a falta de amor – uma cobrança às pessoas que não lhe deram atenção e amor e os arranjos, mesclam sintetizadores e o belo violão acústico executado por Roland Orzabal. Primorosa e inesquecível. A quarta faixa “Ideas As Opiates” é interpretada por Orzabal, carregada de emoção e intimismo. Assim como as anteriores, se trata de mais outra letra confessional, entremeada por um arranjo “quase acústico”, que no final tem o solo de saxofone de Mel Collins que reforça o tom emotivo da canção. 
A próxima faixa é a bela “Memories Fade”, novamente confessional. A interpretação de Orzabal é marcante e emocional, apresentando mais uma letra que fala de tristes memórias que precisam ser “esquecidas” (Memórias desaparecendo, mas as cicatrizes ainda permanecem). A voz de Orzabal é linda e já dava a antecipação que nos próximos anos, seria um dos melhores vocalistas dos anos 1980. Destaques para o belo solo de saxofone de Mel Collins, além dos competentes Ian Stanley (teclado e sintetizador) e Manny Elias (bateria). Penso no quanto Stanley e Manny Elias foram fundamentais para o sucesso do Tears for Fears.
“Suffer The Children” é uma faixa interessante: particularmente, gosto do início com aquele sintetizador e apresenta em geral, uma sonoridade bem eletrônica que serve de base para Orzabal cantar a letra que fala de uma criança triste que está sozinha, em seu quarto. O coro que tem a participação de Caroline Orzabal reforça ainda mais a sensação de angústia da criança descrita na canção. “Watch me Bleed” é a próxima música: ótimos arranjos com sintetizador, guitarra, violão acústico e boa linha de baixo – acompanhados pelo competente baterista Manny Elias. Outra letra carregada de angústia (acredito que mais que as anteriores) com o desempenho emocionado de Roland Orzabal. Acredito que o saudoso e genial Renato Russo escutou essa música – os acordes lembram um pouco a música “Que País É Este” –  e se é verídico ou não, o fato é que Renato apreciava o trabalho de grupos como Tears for Fears e The Smiths. A oitava faixa é “Change”, interpretada por Curt Smith. A canção é um clássico e foi um dos primeiros singles do grupo. A base da canção, além do baixo, da guitarra e teclados tem a melodia de xilofone, o que foi bem inovador – poucas canções utilizavam esse instrumento. Anos mais tarde, teve seu reconhecimento criativo pelas novas gerações (David Guetta e Culture Beat samplearam a canção). 
A nona faixa é “The Prisoner” que mais parece ser uma dessas canções sinistras, direcionadas para trilhas incidentais de filmes de terror ou suspense. Mais uma vez, Curt empresta a sua voz. Acredito que “The Hurting” foi um dos trabalhos que mais destacaram a participação de Curt Smith: das dez faixas, o baixista cantou em quatro delas e três foram singles. Ótima fase do rapaz, que além de tudo era o “crush” de muitas fãs nesse tempo.
A última faixa é “Start of the breakdown”, outra composição que apresenta angústia e até mesmo, depressão para o ouvinte: não podemos esquecer que o álbum é “fruto” da teoria do grito primal (assim como o próximo trabalho da dupla, o clássico “Songs from The Big Chair” de 1985). As letras carregam uma grande carga de emoções e sentimentos tristes, os quais Roland Orzabal procura “exorcizar” quando interpreta. Sem dúvidas, esse CD (ou vinil que ainda tenho!) é um dos melhores resultados gerados pela teoria de Arthur Janov. Roland escreveu letras de temática pessoal nas quais retratam tristeza, solidão e angústia. 

Por esses motivos, considero “The Hurting” como um grande disco de estreia. Um trabalho sincero e de muita qualidade, feito por dois jovens de grande talento.

Os textos publicados na página do 80 Minutos representam exclusivamente a opinião do autor


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