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Resenha: Coloured (2018)

Álbum de Priscilla Renea

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Soul music com country, contra o racismo

Autor: Roberto Rillo Bíscaro

15/09/2020

Priscilla Renea manda muito bem como compositora, tendo canções em álbuns de consagrados como Rihanna, Madonna, Demi Lovato, Selena Gomez e mais. Isso não se repete na trajetória como cantante: seu álbum de estreia – Ujkebox (2009) – vendeu umas cinco mil cópias globalmente.

Deve ter sido por isso que a norte-americana só lançou seu segundo trabalho nove anos mais tarde. Coloured não deve ter feito muito melhor que seu predecessor. Chato, porque algumas letras sobre problemas raciais e a adição de elementos country, recomendam-no.

Criada na parte rural da Flórida e expulsa de casa pela mãe, quando começou a lutar pelas próprias opiniões, Priscilla junta suas raízes country e tom confessional de agora-vencedora, na abertura Family Tree, cujo country é meio alternativo, daquele do tipo da Handsome Family. Ela respeita tanto o subgênero que foi à sua capital, Nashville. Por isso que Jonjo tem suave aroma rural, mas sobreposto por produção meio trap, com refrão grudento. E, claro, não podia faltar baladaça country: If I Ever Loved You não deixa pedra sobre pedra e tem até solo de guitarra meio country rock.

E por falar em pedras, ela sugere ao amado construir uma casa com as pedras atiradas pelos desafetos, em Let’s Build a House, puro drama de diva soul country. Drama gritado com sua possante voz. E é isso, Coloured pode ter indícios country e até faixa reggae (Different Color), mas Coloured é soul music de grande qualidade. Heavenly é paradisíaca pra nós que amamos diva R’n’B gritando, acompanhada de dedos estalando e pianinho. You Shaped Box também é puro drama, mas a letra é de incentivo e a melodia levada por violões, que se tornam hispânicos em seu auge.

Em Gentle Hands ela sapecamente pede a papai do céu um bofe escândalo, devoto, grandão e de mãos suaves. Essa idealização vem sensualizada numa espécie de blues com salamaleques trap.

Que pena que ainda exista tanto racismo, senão a linda Land Of the Free poderia ser sobre outra coisa e não violência policial contra afrodescendentes. Tem até o hino nacional estadunidense solado na guitarra, como apêndice.

Priscilla Renea não inventou a fusão entre soul e country, mas Coloured merecia tê-la colocado mais forte no radar do público que ainda consome black music não totalmente produzida como trap.

Os textos publicados na página do 80 Minutos representam exclusivamente a opinião do autor


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