Para os que respiram música assim como nós


Resenha: Raoul and the Kings of Spain (1995)

Álbum de Tears for Fears

Acessos: 159


A combinação da música latina com o pop rock

Autor: Débora Arruda Jacó

12/09/2020

“Raoul and the Kings of Spain” (lançado em outubro de 1995) é o quinto álbum de estúdio do Tears for Fears. Na verdade, trabalho que se pode considerar como “solo” de Roland Orzabal, porém, ainda mantendo a marca “Tears for Fears”. Roland Orzabal teve como colaboradores músicos renomados, como Gail Ann Dorsey (baixista), Alan Griffiths, Jeffrey Trott (guitarristas) e Brian Macleod na percussão e baterias.  Portanto, o álbum não contou com a participação de Curt Smith, que a essa altura não era mais integrante do Tears for Fears: o baixista só retornaria no álbum “Everybody Loves A Happy Ending” de 2004. 

A análise inicia pela faixa título, que abre o álbum e já de inicio, Roland Orzabal nos presenteia com uma grande introdução, com seu ótimo solo de guitarra (muito parecida com heavy metal) e a voz marcante do cantor. A letra é poética e contundente ao mesmo tempo: “Did you know all mothers come from heaven/Did you know all fathers come from hell” em português, algo como: ”Você sabe por que todas as mães vão para o céu/Você sabe por que todos os pais vão para o inferno”. Para os que conhecem a história de Roland Orzabal, isso pode soar como uma espécie de mensagem indireta (na menção aos pais) – Roland e o Pai não eram grandes amigos... 
A segunda faixa é “Falling Down”, uma boa faixa com belos arranjos e ótimo vocal. Porém, gosto mais da próxima: “Secrets” linda e poética – apresenta uma letra confessional que diz à amada que “não vai manter segredos vivos, mas o amor dele pode preencher as marcas trazidas” pela dor. Agrada o arranjo instrumental e a voz de Roland, impecável – prestem atenção quando ele pronuncia “My Angel”... Eu aprecio demais!
“God’s Mistake” é executada de vez em quando nas rádios (àquelas com um mínimo de classe): a letra é um questionamento sobre os desígnios e a incerteza de que Deus existe – lembra um pouco, as minhas aulas de filosofia nas quais tinham como base de estudo, o kantismo - com todas aquelas reflexões de entendimento complexo. A parte instrumental é agradável e bem elaborada, não deixando de apresentar o lado “Rock’n’ Roll”. É a minha segunda preferida. Destaque para Gail Ann Dorsey que teve um belo desempenho nesse trabalho, uma digna representante feminina. Só tenho elogios para Orzabal, por ter feito o convite para essa instrumentista. Nota dez!
“Sketches of Pain”: bela música e mais um grande acerto de Roland Orzabal e companhia – não podemos esquecer que “Tears for Fears” é um grupo... A adição de um belo interlúdio flamenco, a torna um dos melhores momentos desse trabalho. A arte está presente nessa composição. A faixa a seguir é “Los Reyes Católicos” que não demonstra o mesmo brilho e soa um pouco estranha, porém se trata de uma alusão histórica – especialmente para Roland. O cantor compôs a canção provavelmente tendo em conta suas origens hispânicas e a história.
“Sorry”: não sinto nenhum pudor em dizer que aprecio essa música – quase um “heavy metal” (Será que Roland além de música flamenca, andou escutando Led Zeppelin...). Os versos são na realidade, um belo pedido de desculpas, bem inspirado, diga-se de passagem. Os arranjos bem elaborados: a ótima guitarra e a linha de baixo complementados pelos teclados fornecem energia à canção. Também tem efeitos sonoros que são semelhantes ao som do antigo Windows 7 (Realtek High Definition) – particularmente, acho que se trata de um caso bem interessante de experimentalismo. Orzabal “inovou” para os padrões do Tears for Fears. Porém, vamos recordar que o grupo desde o seu primeiro trabalho, é famoso pela inclusão de instrumentos eletrônicos (teclados e sintetizadores).
A próxima música é “Humdrum and Humble” e tenta seguir padrões musicais que estavam em voga, nos anos 1990: canção pop, com elementos bem próximos da dance music – sem necessariamente ser uma canção dançante. Outra vez, a voz de Roland Orzabal faz toda a diferença. Lembra “Tears Roll Down”.  A seguir, vem a faixa “Choose You”: suave e agradável de ouvir, mas a sucessora compreende mais o meu estilo de música preferido. “Don’t Drink the Water” é bem mais interessante que a antecessora: um pouco experimental, com efeitos sonoros (batida de carro, trânsito?!) e apresenta uma espécie de “declamação” ou fala de Roland inicialmente. Pop - Rock bem interessante.
A penúltima faixa é o retorno do dueto Orzabal/Oleta Adams: “Me and My Big Ideas”. Oleta Adams brilhou em 1989 com “Woman In Chains” juntamente com Orzabal, faixa do álbum “Seeds  of Love” . Gosto de Oleta e admiro seu trabalho e voz, mas não tenho como deixar de fazer um paralelo com “Woman In Chains”: tanto Orzabal como Oleta, emprestam grande carga emocional à música, inclusive apresentando harmonia vocal, mas definitivamente “Me and My Big Ideas”, não possui o mesmo impacto da famosa faixa de “Seeds of Love”.
Encerrando o CD, temos a anteriormente citada “Los Reyes Católicos” (Reprise) mais extensa que a primeira versão. Poderia ser dispensada, em minha opinião – mas é uma faixa de “continuação”, que o cantor provavelmente considerou importante para o álbum.

Portanto, “Raoul and the Kings of Spain”, mesmo apresentando deslizes (felizmente são poucos) é um bom trabalho que prova que Roland Orzabal é um grande cantor, compositor e músico. Demonstrou que conseguiu “segurar” bem a nomenclatura “Tears for Fears”, até o retorno de Curt Smith. Um álbum que se não foi bem em vendas, provou ser um trabalho  forte, com influencias da música latina. Por isso Roland Orzabal se saiu bem: não teve medo em assumir suas origens latinas.

Os textos publicados na página do 80 Minutos representam exclusivamente a opinião do autor


Compartilhe:

Comente: