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Resenha: Black Celebration (1985)

Álbum de Depeche Mode

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Combinação primorosa de atmosfera sombria com camadas eletrônicas

Autor: Expedito Santana

11/09/2020

O Depeche Mode tem uma virtude que poucas bandas pop de vertente eletrônica possuem, seu som consegue ser sombrio por vezes, melancólico e ao mesmo tempo radiofônico. Tanto que muitas bandas de metal e rock mais pesado afirmam ter sofrido a influência dos ingleses. 
Black Celebration demonstra, de forma inequívoca, que é possível introduzir elementos sombrios e depressivos numa música de contorno pop.  Black Celebration é o quinto álbum de estúdio da banda e foi lançado em 17 de março de 1986, sucedendo Some Great Reward. Produzido pela própria banda juntamente com Daniel Miller e Gareth Jones. 

Segundo a crítica e os fãs, incluindo este vos escreve, Black Celebration é um dos melhores discos da banda, sendo considerada a segunda obra-prima cronologicamente falando e a quarta em importância. 
O Álbum não trouxe nenhum grande hit, na verdade, trata-se de uma obra bastante linear em termos de qualidade musical, o que provavelmente vai impedir que o ouvinte pare o disco ou pule canções após os primeiros acordes da faixa título, que abre os trabalhos de maneira impecável e dá uma mostra bem clara das camadas sonoras que estão por vir. 
Esta resenha marca minha estreia aqui no site 80 Minutos, tendo em vista que não sou instrumentista e nem disponho de conhecimentos técnicos de música, sendo apenas um grande apaixonado por esse mundo, as análises que farei a seguir de cada faixa do Álbum são meramente emocionais, subjetivas e apoiadas nos sentimentos que cada uma delas produziu em mim. 

Como dito anteriormente, Black Celebration inicia o disco com uma sonoridade dark que faz jus ao título da faixa e às letras, uma música incrível, com sintetizadores espetaculares, clima sombrio e de certo suspense, os vocais são absolutamente perfeitos, David Gahan combina melodia, pop e técnica de modo irrepreensível, lirismo sombrio de primeira qualidade (...Quando toda esperança se for/Você não pode ver? Seus olhos otimistas/ Parece o paraíso/ Para alguém como/Eu/ Quero te pegar em meus braços/ Esquecendo tudo que eu não pude fazer hoje/ Celebração negra...) São quase 5 minutos de um Depeche em alto nível, dessas faixas que você não quer que acabe. 
Em seguida vem a não menos brilhante “Fly on the Windscreen”, de abordagem minimalista e com batida mais pop-eletrônica, apresentando sintetizadores e teclados sombrios e espaciais em alguns momentos. Se ouvida com atenção, pode revelar detalhes instrumentais interessantes e criativos. Refrão de apelo pop e grudento. Ótima para remixes dançantes.  
“A Question of Lust”, cuja letra trata da presença quase inevitável do desejo e do ciúme nos relacionamentos, tem um início com vocais belíssimos, interpretada por Martin Gore (tecladista, vocalista, guitarrista e compositor da banda a partir de 1981), o qual tem um apelo melódico simplesmente impressionante. Foi um dos singles de destaque do disco. Tem solo de teclados muito legais, enfim, mantém o nível lá nas alturas.  
“Sometimes” é uma baladinha pop agradabilíssima, que parece começar com um teclado meio piano, vocais que se repetem ao final de cada verso da letra, faixa muito singela, cujo único pecado é ser curta demais, apenas 1 min e 54 seg. Também interpretada por Martin Gore. 
It Doesn't Matter Two apresenta uma estranheza notável, pautada por um tom levemente macabro e com vocais meio religiosos num coro inicial que se repete ao longo da música. Martin Gore também está nos vocais. Tem sintetizadores bem interessantes. Prestem muita atenção na segunda metade dessa faixa, ela perde o ritmo bem devagar ao final deixando um ar de insanidade pairando. 
“A Question of Time” tem um ritmo bem mais acelerado que a faixa anterior, Gahan assume os vocais, em que pese o leve pulsar, não espere nada muito dançante, pois o ambiente sombrio continua por baixo na marcação da bateria eletrônica. Boa música e que funciona muito bem no contexto e momento do álbum. O videoclipe de "A Question of Time" é o primeiro videoclipe do Depeche a ser dirigido por Anton Corbijn, e foi o início de um relacionamento com ele e a banda que perdura até hoje. Foi incluído no vídeo Strange, The Videos 86-98, no DVD de The Best of Depeche Mode Volume 1 e na coleção de singles de vídeo. Ótima faixa. 
“Stripped” apresenta um prelúdio sensacional, sintetizadores e teclados climáticos, pulsante, levemente sombria, pop e misteriosa. Vocais maravilhosos de Gahan, com variações de timbre muito charmosas e que dão um diferencial à canção, bateria contida e que faz uma marcação como se fosse um prelúdio incessante, solo de teclado muito bom, com Gahan cantando por cima, espetacular até o último minuto, de arrepiar!! 
“Here is the House” começa com uma batidinha pop marota, vocais muito bons de Gahan em ritmo médio, mas sem deixar a bola cair. Teclados com inserções bem interessantes. Do tipo de música que a gente não dá a devida atenção logo no início, mas que depois nos cativa bastante. 
Em “World Full of Nothing”, que tem letras que abordam a solidão e o vazio que podem afetar até as pessoas que vivem num mundo superpovoado, Gore volta a performar como vocal, esta música tem ritmo bem calmo e reflexivo, os vocais dão um tom de tranquilidade não visto ao longo do disco. Há ainda um certo ambiente de passividade a apatia presentes. Qualidade mediana. 
“Dressed in Black” soa bem tranquila, quase uma valsa eletrônica (se é que existe tal gênero!!), Gahan até ensaia vocais meio teatrais, a faixa transcorre numa mesma batida de teclado e embora termine sem chamar muita atenção, não compromete o conjunto da obra. 
“New Dress” inicia com uma bateria eletrônica e sintetizadores bem emoldurados, lembra um pouquinho Information Society. Os vocais de Gahan são intercalados por coros e faz uso de alguns efeitos, a canção mantém uma pegada bem eletrônica e rompe um pouco o clima dark do disco, a não ser por inserções de teclados bem discretas que retomam a escuridão. Não pode ser considerado um gran finale, porém, fecha os trabalhos com dignidade e harmoniza bem com tudo que foi feito até então. 

Considero Black Celebration uma obra-prima do synth-pop, sobretudo por conter uma combinação primorosa de atmosfera sombria com camadas eletrônicas. É um daqueles discos que ficam ressoando na mente após a audição e que nos convida a uma viagem intimista e reflexiva. Depeche Mode em rotação atmosférica e criativa, destilando um clima dark que cativou gente da estirpe de Robert Smith do The Cure, fã confesso da banda. Indispensável para os adeptos do gênero.

Os textos publicados na página do 80 Minutos representam exclusivamente a opinião do autor


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