Para os que respiram música assim como nós


Resenha: Songs From The Big Chair (1985)

Álbum de Tears for Fears

Acessos: 209


Clássico dos anos 80

Autor: Débora Arruda Jacó

10/09/2020

Não tenho dúvidas que “Songs From the Big Chair”, o segundo álbum da dupla Tears for Fears, figure entre os melhores trabalhos dos anos 1980: lançado em fevereiro de 1985, com oito faixas, sendo que cinco delas obtiveram posições de destaque nas principais paradas de sucesso do Mundo. “Songs From the Big Chair” assim como “The Hurting” (1983) o primeiro trabalho da dupla, teve grande influencia de Arthur Janov, o psiquiatra do “Grito Primal” que também influenciou John Lennon no álbum “John Lennon/Plastic Ono Band” (1970).

Não sou música: no máximo dedilho o violão, então a minha análise não é técnica, mas emocional e mesmo passional. Desde os meus nove anos, gosto muito da dupla e sim, tenho a discografia deles completa.  A partir desse parágrafo, vou substituir o título original de “Songs From...” pela denominação “Álbum”. (Com “A” maiúsculo).
Ainda tenho dois vinis: “The Hurting” e “Seeds of Love” (1989), que não pretendo me desfazer. Por que falo isso? Porque ao ler essa resenha, não quero que o leitor pense em se tratar de alguém que desconhece o trabalho da dupla ou está escrevendo pelo simples fato de “escrever”. 

Apresentadas as minhas credenciais, então vamos retornar à “Songs From the Big Chair”: a primeira faixa, “Shout” dispensa comentários – a canção tornou-se uma espécie de “hino” dos anos 80, com sua letra que fala de “gritar”, tal como a teoria de Janov que diz que o grito é uma forma de expor e colocar para “fora” seus medos. Além dos grandes arranjos musicais, que tiveram grande colaboração de Ian Stanley (teclados e sintetizadores) e Manny Elias (bateria), temos a voz eloquente de Roland Orzabal, um dos vocalistas e uma das melhores vozes dos anos 1980.  O solo de guitarra de Orzabal também é muito bem executado. Enfim, uma canção que só poderia ter se tornado sucesso. A próxima faixa é “The Working Hour”, com sua letra confessional e que tem na introdução, um belo solo de saxofone executado pelo músico William Gregory e acompanhado pelos sintetizadores de Ian Stanley – destaque também  para o trabalho de percussão e bateria de Manny Elias. 
A terceira faixa é uma “velha” conhecida: “Everybody Wants Rule the World”, presente nas rádios de Pop, Rock e Flashback até os dias de hoje. Uma história conhecida é a de que o grupo não chegava a um consenso se a incluiria no Álbum, porém depois de uma conversa resolveram incluí-la, mas não imaginavam que faria tanto sucesso... Ainda bem! Ao contrário das demais faixas, quem canta dessa vez é o baixista Curt Smith: gosto da interpretação dele, porém gosto mais da voz de Orzabal – Porém, reconheço que Smith é bom cantor e baixista (não chega a ser um Chris Squire ou um Robert DeLeo...). E com o passar dos anos, se aprimorou mais, o que é ótimo.
Confesso que em minha pré-adolescência, me entusiasmava muito com o belo rosto  do Smith, mas daí é outra história – estamos falando de música. A letra da canção trata em geral, de ambição, parece inclusive tratar de política (sutilmente) e o título já antecipa essa premissa.
Outra curiosidade antes de analisar a quarta faixa: reza a lenda que Michael Jackson gostou tanto do trabalho da dupla, que baseou sua "The Way You Make Me Feel" (1987) nos arranjos de “Everybody Wants Rule the World”.  A “deixa da vez” agora é “Mothers Talk”, uma canção de ritmo contagiante novamente interpretada por Orzabal que tem em seus versos frases como “ventos da mudança”. Smith e Orzabal falaram naquele tempo que haviam se inspirado em uma fala que as mães costumam dizer aos filhos que se eles fazem muitas caretas, seus rostos ficarão daquela maneira, caso o vento mude. Uma espécie de crendice popular das “terras da Rainha”. (A dupla é Inglesa).
A próxima faixa é “I Believe”, um misto de blues e jazz bem interessante: Orzabal canta em falsete no inicio o que me fez acreditar inicialmente de que se tratava de uma interpretação de Curt Smith, isso até ter o Álbum e assistir o vídeo clipe. Metaforicamente é como se fosse a “bonança” depois de uma faixa agitada. “I Believe” é também uma homenagem ao músico Robert Wyatt, conceituado músico de pop e jazz, nascido em Bristol.
As próximas faixas: “Broken”, uma faixa “instrumental” que antecede a maravilhosa (e a minha preferida!) “Head Over Heels”. “Broken” foi gravada ao vivo e Orzabal entoa na faixa alguns versos finais da próxima faixa – grande momento e que me faz lembrar um pouco, a concepção inicial do Rock Progressivo em seus primórdios. “Broken” é como uma peça complementar de “Head Over Heels” retomada (mais enxuta) no final da canção.
 “Head Over Heels”: outra maravilha interpretada por  Orzabal, e particularmente a minha faixa predileta. A canção trata de uma “cantada” tímida e discreta na qual Orzabal fala à amada que “quer conversar sobre o tempo com ela”. Sabe aqueles rapazes tímidos? É bem isso. Destaque também para os desempenhos de Ian Stanley (que teve destaque no vídeo!) e Manny Elias que fez o “judeu barbudo”. Aliás, esse vídeo até pediria uma resenha... A faixa tem a retomada de “Broken”, porém instrumental dessa vez e que finaliza a música. Mais uma vez, cito a influencia do Rock Progressivo que costumava apresentar faixas conceituais e acredito que aqui é quase o caso, por se tratar de uma continuação.
A última faixa é “Listen”, uma canção ambiente, próxima de uma trilha incidental, costurada com sintetizadores – ideia de Ian Stanley, embora conste nos créditos que Orzabal é também um dos compositores. Stanley já chegou a considerar a faixa como se fosse “um filho”. A canção pode ser muito bem inserida em espaços culturais como galerias de artes e museus. Sofisticada.

Os textos publicados na página do 80 Minutos representam exclusivamente a opinião do autor


Compartilhe:

Comente: