Para os que respiram música assim como nós


Resenha: Autumn In The Neighbourhood (2015)

Álbum de China Crisis

Acessos: 175


Acusticamente outonal

Por: Roberto Rillo Bíscaro

26/08/2020

Em 1979, o vocalista/tecladista Gary Daly e o guitarrista Eddie Lundon formaram o China Crisis. Como eram dos arredores de Liverpool, assim como o OMD, Echo & The Bunnymen e A Flock Of Seagulls, a imprensa musical inventou uma espécie de cena, que jamais houve. Eram (são, porque todas ainda existem) propostas diferentes.

Com formação flutuante, o China Crisis (CC) não passou de sucesso mediano: a colocação mais alta nas paradas britânicas de álbuns/singles não passou de oitavo e isso se repetiu no resto do mundo com dinheiro para consumir, dos recessivos anos 80.

Gary e Eddie descontinuaram o CC, em 1995, mas faziam ocasional show aqui e acolá; de vez em muito quando, até nos EUA e mais frequentemente naqueles lugares sedentos por velharias 80’s, tipo Filipinas.

Em 2015, Daly e Lundon recorreram à vaquinha no PledgeMusic para produzir as onze faixas de Autumn in the Neighbourhood, que, desde a primeira canção apresenta sonoridade bem mais orgânica, acústica, sem aquele verniz genérico de quando quiseram ser New Wave. Eliminadas as camadas de teclados despersonalizados e a bateria eletrônica artificial, Autumn In The Neighbourhood ficou uma delicinha naquela vibe adult contemporary.

Smile começa os trabalhos com arremedo de música “clássica”, que me remeteu imediatamente à versão extended de Since Yesterday, do Strawberry Switchblade, antes de se transformar numa espécie de New Wave semiacústica, composta por quem ouviu muito Ashes To Ashes, quando adolescente. E é também em clima New Wave, mas em registro mais midtempo, que termina o álbum. Quem ouvia FM no início dos 80’s, não terá objeção alguma.

Cheio de melodias lindas, o China Crisis compôs um álbum integralmente agradável. Quem curte Prefab Sprout encantar-se-á com Down Here On Earth, mas aposto que muito devoto de Burt Bacharach não resistirá ao charme easy listening de Fool. Totalmente Tears For Fears, encarnação Advice to the Young at Heart, até com guitarrazinha soft rock.

Easy = fácil. Assim é tudo, independentemente das inflexões. A faixa-título, Being In Love e Bernard incursionam pelo blue-eyed soul. Because My Heart tem guitarrinha country, que também assombra a maior parte da longa introdução de Tell Tale Signs. Wonderful New World passeia bem pelo gosto do indie rock atual, que pode ser apreciada por certos fãs de Belle And Sebastian (sonicamente, não em termos de letra, claro). Joy And the Spark é tão balada oitentista que tem até discreto saxofone, instrumento-símbolo da década. My Sweet Delight faz jus ao nome, com seu delicado clima de valsinha folk, com acordeão e tudo.

Quem diria que o China Crisis surpreenderia, no século XXI? Para ver como os anos 1980 recusam-se a morrer.

As publicações de textos e vídeos no site do 80 Minutos representam exclusivamente a opinião do respectivo autor


Compartilhar

Comentar via Facebook

IMPORTANTE: Comentários agressivos serão removidos. Comente, opine, concorde e/ou discorde educadamente.
Lembre-se que o site do 80 Minutos é um espaço gratuito e aberto para que o autor possa dar a sua opinião. E você tem total liberdade para fazer o mesmo, desde que seja de maneira respeitosa.