Para os que respiram música assim como nós


Resenha: Sobrevivendo No Inferno (1997)

Álbum de Racionais MC's

Rap

Acessos: 281


Uma das obras-primas da música popular brasileira

Por: joaoga007

23/08/2020

Uma pena, definitivamente uma pena que Racionais MCs não estejam na mesma prateleira de Geraldo Vandré, Legião Urbana, Os Paralamas do Sucesso ou Chico Buarque. Mas a sua obra não deixa desejar, e "Sobrevivendo no Inferno" é uma prova de que a crônica sobre o cotidiano está presente mais do que nunca na música popular, estas canções poderiam ter sido notícias no jornal, ou mesmo uma coluna de qualquer sociólogo.

O álbum traz a palavra crônica bem na sua essência no sentido da palavra que é (Relatos do cotidiano) e para ilustrar bem isso “Tô ouvindo alguém me chamar”, onde um “mano” narra sua trajetória no mundo do crime até sua morte. Não é exagero dizer que nos sentimos dentro da pele do personagem. E cada crime, cada assassinato parece ter sido praticado ou presenciado por quem ouve a canção, e todas as angústias, mágoas e arrependimentos parecem fazer parte de nós. Para ilustrar o que eu disse aqui vão alguns versos “Algum dinheiro resolvia o meu problema/O que eu 'to fazendo aqui?/Meu tênis sujo de sangue, aquele cara no chão/Uma criança chorando e eu com um revolver na mão/Eu era um quadro do terror, e eu que fui ao autor”.

O álbum  possui um realismo sofisticado e simples tal qual o Filme “Cidade de Deus” a atmosfera é pesada e soturna, mas a forma que a história é contada dá outra cara. A gente vê um crime mas nunca imagina como é está na pele de quem cometeu, a gente vê a periferia mas não imagina como é a vida dentro da periferia. Longe de glamourizar a vida de gangster, traficante ou ladrão, o álbum mostra que há um ser humano por detrás da arma, e que a vida no crime é uma vida bastante difícil e há vida onde se pensam que há apenas números.

E por falar em números vamos a um conto (Narrativa curta com foco em um determinado acontecimento) que aborda os últimos dias de um detento no Carandiru. "Diário de um detento" se o álbum trata do crime nas ruas aqui temos a tensão na prisão pouco antes do massacre do carandiru. Sobre esta canção apenas posso dizer que mesmo que eu soubesse explicar não faria sentido que eu explicasse, esta música é algo muito particular que só quem ouve consegue sentir ou sabe decifrar.

Porém nas últimas músicas o álbum levanta um pouco mais o astral seja na busca pela paz em “Mágico de OZ” que conta com um excelente trabalho de backing vocal, ou em “Fórmula mágica da Paz”. Mas “Qual mentira vou acreditar” consegue ser a faixa mais alegre ou menos soturna do álbum.

Em geral este é um álbum que vale a pena ser ouvido em qualquer tempo, Seja para lembrar o que fomos e saber o que somos. As letras são o carro chefe embora todos os samples e bases sejam realizados com maestria, além dos vocais bem afiados. Com muita razão este álbum hoje em dia está em muitas listas de melhores álbuns de todos os tempos, mas como disse no início uma pena ele ser lembrado pelo mainstream.

As publicações de textos e vídeos no site do 80 Minutos representam exclusivamente a opinião do respectivo autor


Compartilhar

Comentar via Facebook

IMPORTANTE: Comentários agressivos serão removidos. Comente, opine, concorde e/ou discorde educadamente.
Lembre-se que o site do 80 Minutos é um espaço gratuito e aberto para que o autor possa dar a sua opinião. E você tem total liberdade para fazer o mesmo, desde que seja de maneira respeitosa.