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Resenha: Ringo's Rotogravure (1976)

Álbum de Ringo Starr

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Mesmo com poder de fogo, não funcionou

Por: André Luiz Paiz

21/08/2020

Ringo deu uma derrapada em "Goodnight Vienna", disco anterior, com canções de pouco impacto e pouca energia. Como naquele trabalho apenas John Lennon contribuiu, o baterista recorreu novamente aos também ex-Beatles, Paul McCartney e George Harrison, para o seu primeiro lançamento pela Atlantic (US) e Polydor (UK). Mesmo com a participação dos três, "Ringo's Rotogravure" também decepcionou.

Acredito que o principal problema deste disco é a produção. Arif Mardin assumiu a parada e acabou direcionando o disco para muito distante da ousadia de "Ringo", álbum produzido por Richard Perry, que aliás era a primeira opção para este disco também, mas acabou não dando certo. O disco tem um pouquinho de rock, um pouquinho de soul e um pop bem clássico e até certo ponto brega. No geral, falta pegada e energia, além de elementos que pudessem elevar as composições que, apesar dos seus notáveis criadores, desta vez não soaram tão brilhantes.

Novamente temos um belo cast de músicos. Contribuições de artistas como John Lennon, Paul McCartney, Eric Clapton, Harry Nilsson e Peter Frampton chamam a atenção. George Harrison entregou uma composição a Ringo, mas não conseguiu participar das sessões por conta de uma hepatite e também por estar correndo contra o tempo para entregar o álbum "Thirty Three & 1/3". "I'll Still Love You" pode ser considerada a melhor do disco, embora tenha sido causadora de muitos problemas. Vamos falar um pouco sobre ela:
Esta faixa já teve alguns títulos diferentes e foi criada lá nas sessões de "All Things Must Pass", álbum clássico de George. "Whenever" e "When Every Song Is Sung" são alguns nomes que ela teve. George tentou registrá-la para vários outros artistas e acabou não funcionando. Ringo viu potencial e quis gravá-la, e o fez, mas George não gostou do resultado e ameaçou processar quem tivesse na frente para evitar a publicação. O assunto acabou sendo resolvido fora dos tribunais, entre advogados. George gostava da faixa e via nela o mesmo potencial de "Something", apesar de uma letra mais ou menos. A balada é boa mesmo, embora Ringo não tenha extraído o melhor dela.
No restante do material, John Lennon entregou a fraquinha "Cookin' (In the Kitchen of Love)", com uma levadinha meio country pop, e Paul contribuiu com a balada "Pure Gold", que é apenas bonitinha e um pouco arrastada demais. "A Dose of Rock 'n' Roll" abre o disco dando uma certa esperança ao ouvinte, mas é apenas ilusão, pois o agito fica apenas nela. Porém, é um dos destaques. Do lado negativo, a cover de "Hey! Baby" (Bruce Channel) ficou bem abaixo, assim como "Las Brisas" e "Lady Gaye", ambas compostas por Ringo e amigos. "Las Brisas" é até engraçada, mas dá aquela sensação de: "o que essa música está fazendo aqui?". Dentre as composições de Ringo, ele se destaca com a bela balada "Cryin". Gostei também do resultado de 	"This Be Called a Song", principalmente pelas belas linhas de guitarra de Eric Clapton, também compositor da canção. Por fim, "You Don't Know Me at All" dá pra passar tranquilo por ela e "Spooky Weirdness" é apenas uma vinheta de encerramento.

Com uma produção que poderia ter elevado bastante o material, "Ringo's Rotogravure" registra a última vez que os quatro ex-Beatles contribuíram em um disco de estúdio, mesmo que em sessões separadas ou como apenas compositor, como no caso de George Harrison. Um disco que poderia ser histórico por isso, mas é certo de que este é apenas o único fator positivo. A audição não é desagradável, é um bom álbum em seu contexto todo, mas está bem longe do esperado em comparação com o nível dos músicos participantes.

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