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Resenha: Belchior Blues (2012)

Álbum de Belchior

MPB

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As águas do rio Mississippi inundam o agreste cearense!

Por: Márcio Chagas

13/08/2020

O cearense Belchior nunca teve o reconhecimento merecido por seu trabalho, como alguns cantores de sua geração. Talvez por levar ao pé da letra o que dizia em sua mais célebre canção, “Não me peça que eu lhe faça Uma canção como se deve, Correta, branca, suave Muito limpa, muito leve...”. Talvez por ter domínio completo sobre seu trabalho artístico e não realizar concessões, o cantor e compositor tenha sido relegado ao duro esquecimento nas ultimas décadas.

Tentando corrigir esse erro, o governo do Ceará e sua secretaria de cultura, idealizaram no ano de 2012, um ambicioso projeto: Chamar os novos e velhos talentos do blues nacional para revisitarem a obra de Belchior, trazendo o lirismo do cantor e compositor pro universo do blues. 

Capitaneado pelo gaitista Jefferson Gonçalves, foram convocados os maiores e melhores blueseiros de todos os estados do Brasil, para se juntaram em um único CD, celebrando e revisitando, cada um ao seu jeito, a bela música de Belchior.

O CD abre com os cearenses do Blue label, que fizeram uma versão menos melancólica e mais rápida para “Paralelas”, com uma grande base ponteada pelo órgão Hammond ao fundo. Big Joe Manfra trouxe a canção “Velha roupa colorida”, pra dentro do universo do blues, adicionando belos solos com sua pungente guitarra. Acabou se tronando uma das melhores faixas do CD. Os paranaenses do Mr. Jack revisitaram “A Divina Comédia Humana’, com um arranjo mais correto, com um belo solo de gaita e com o vocalista e guitarrista Marcelo Ricciardi tentando soar parecido com o homenageado. 

O idealizador do projeto Jefferson Gonçalves que sempre adicionou pitadas de MPB e ritmos brasileiros em seu blues, não teve dificuldades em realizar uma bela versão para “A Palo Seco’, que contou com os belos vocais da convidada Luana Dias. Os anos de estrada fizeram diferença para os tarimbados músicos do Blues Etílicos, que mandaram um sensacional versão parra “Mucuripe”, com um arranjo bastante emocional tendo o vocalista Sambê como convidado. O guitarrista cearense Artur Menezes e sua banda fizeram um soft blues para “Hora do Almoço”. Além do balanço que o jovem músico imprimiu na canção, ainda conseguiu colocar um belo solo de guitarra na música. 

Aqui de minas, o grupo Ted & Blue Drop revisitaram “Medo de Avião”, um dos grandes sucessos de Belchior. O grupo imprimiu um arranjo mais swingado a canção, calcado no hammond, o que combinou bastante com a voz soul da convidada Tiara Magalhães.  O duo cearense formado por Marcelo Justa e Diogo Farias, rearranjaram “Galos Noites & Quintais”. Os músicos fizeram um street blues digno das ruas de Nova Orleans, com gaita,  slide e violão, imprimindo um tom diferente e descontraído a canção, outro excelente momento do CD. O paulista Vasco Faê cantou e gravou todos os instrumentos em sua versão de “Pequeno Mapa Do Tempo”, que virou um blues arrastado e muito bem tocado. “Como Nossos Pais”, que ficou famosa na voz de Elis Regina, ganhou um arranjo mais próximo da canção original com a carioca Taryn Szpilman e sua banda, fazendo uma interpretação emocionante, com leves pitadas de blues. 

O pianista paulista Adriano Grineberg e sua banda ficaram responsáveis por “Comentário a Respeito de John”. O músico fez um arranjo meio blues, meio MPB, sempre calcado em seu instrumento, garantido uma boa versão. Surpreendentemente vindos do Espírito santo, temos o pessoal do Big Bat blues Band. O grupo tocou sua versão para “Fotografia 3X4”, e se saiu muito bem, com um arranjo mais bluseiro, valorizando  o grande vocal de Eugênio Goulart. Felipe Cazaux e sua banda ficaram responsáveis por imprimir sua marca no maior sucesso do homenageado, “Apenas Um Rapaz Latino Americano”. E talvez essa nova promessa da guitarra blueseira nacional foi o que melhor conseguiu captar o espírito da homenagem. O cearense fez um blues arrastado, cheio de guitarras e com um vocal pra lá de emocionante. Se o músico mantiver essa qualidade em seus trabalhos solos, pode ter certeza que ainda ouviremos falar muito de Felipe no futuro. Para encerrar, temos Rodrigo Nézio & Duocondé Blues, outro representante de minas, que ficaram a cargo de desconstruir “Coração Selvagem”. Foi outro grupo que se deu bem em misturar o estilo do delta do Mississipi com a música de Belchior, inclusive com excelentes vocais de Nézio.

Se você gosta de blues ou da música de Belchior, esse cd é indispensável em sua coleção. O melhor de tudo que ao invés de ser vendido, ele pode ser baixado gratuitamente no site belchiorblues.com.br

Além de baixar o CD completo, você poderá ler sobre o projeto, os músicos que o integraram, ou poderá ainda ouvir as músicas on line.

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