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Resenha: Retro (2006)

Álbum de Rick Wakeman

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Onde Wakeman mistura muito bem suas ideias modernas e traços do passado

Autor: Tiago Meneses

13/08/2020

Ainda hoje eu consigo ver pessoas que ao ouvir um disco pós new-age do mago Rick Wakeman, os comparam com os seus trabalhos dos anos setenta. Sinceramente, eu acabo rindo quando vejo isso acontecer, pois é óbvio que o Wakeman dos anos 00’s não é o mesmo dos anos 70’s. Vamos ter o mínimo de bom senso e imaginar que a música, os músicos, o público, estilos e humores encontrados no passado não são os mesmos de mais de quarenta anos depois atrás. Nem mesmo o mundo é o mesmo, pois sempre esteve buscando uma maneira de se reinventar pra sobreviver. 

Obviamente que o período entre Six Wives of Henry the VIII e Criminal Record foi o auge da carreira de Wakeman, mas não tem como negar que Retro é um disco ótimo para ser apresentado em um novo século. Como o nome indica, ele retorna muito bem as raízes, com melodias marcantes e arranjos pomposos como qualquer um que conheça a sua carreira está acostumado. Mas é bom deixar claro que o disco também soa com um ar moderno, e o nome do álbum pode ser também pelo conjunto dos instrumentos usados por Rick e descritos na capa do disco. 

"Just Another Day" tem um começo eletrônico que leva para uma bela passagem de piano barroco até chegar os vocais de Ashley Holt – que soam excelentes nesse disco.  A música possui várias mudanças de andamento, com Rick tocando algumas passagens de teclados estendidas e bem fluidas, nas quais também inclui tanto moog quanto mellotron. Tudo dentro de um suporte de Tony Fernandez, um baterista muito subestimado e que mais parece um metrônomo humano. Uma música que entrega tudo aquilo que um amante de progressivo pode querer. 

“Mr. Lonely” novamente começa de forma eletrônica e não parece nenhum pouco o tipo de música que alguém que escuta Rick Wakeman espera, porém, isso não faz com que a faixa não seja boa. Traz uma boa inovação e a versatilidade do mago flui muito bem. A conexão clássica é sempre muito evidente e ligada a um desempenho incomum do músico. Uma grande mudança em relação a faixa inicial, inclusive, uma ótima mudança. 

“One In The Eye” traz Wakeman novamente ao seu estilo de som habitual. É impressionante a capacidade que Wakeman tem para passear do clássico ao barroco e depois avançar para o romântico. Podemos até dizer que ele mudou com os anos – até porque de fato mudou mesmo -, mas nunca deixou de ser um artista extremamente sólido. Eu simplesmente adoro essa música. 

“Men In Suits” tem uma introdução que ao mesmo a mim, lembra instantaneamente da delicadeza e estruturações de composições de Vivaldi. Desta vez, Wakeman não passeia por vários estilos e escolhe se concentrar em apenas um, onde os seus movimentos sejam muito bem estruturados, suaves e brilhantes. Após uma forte passagem vocal de Ashley Holt, Rick faz um trabalho sensacional de teclado. 

“Leave The Blindfold” é provavelmente o momento mais fraco do disco. Possui até uns bons vocais de Jemma Wakeman em uma levada instrumental suave e previsível, de certa forma nota-se algum aroma de Beatles. Não é uma música ruim, mas não é do tipo que me agrada. 

“Waveform” ainda que eu não tenha pegado a ideia inicialmente, percebi após algumas audições que é uma espécie de viagem por alguns dos estágios anteriores da carreira de Wakeman. Soa um pouco perto de “The Breathalyser” do disco Criminal Record, mas desta vez com um brilho e pompa aprimorados. 

“Retrospective” como o nome até sugere desta vez, nos leva de volta alguns anos. Desta vez o que o mago apresenta é uma faixa de clima semelhante a "Return to the Center of the Earth”, ainda que de sonoridade mais suave. 

“Homage To The Doctor” segue mais ou menos na mesma linha da anterior, mas mais marcial e com alguns solos de moog simplesmente magníficos, além de um excelente desempenho de órgão. Mais para o final contem uns bons toques vocais de Jemma e Ashley. 

 “Can You Smell Burning” é uma verdadeira joia que tem absolutamente de tudo. Wakeman mostra com clareza porque é considerado um verdadeiro mago das teclas, neste caso específico, moog e órgão, fazendo com que o ouvinte viaje novamente para Six Wives of Henry the VIII. Simplesmente frenética e de tirar o fôlego do começo ao fim. 

“The Stalker” é a música que fecha o disco. Uma música pomposa e que parece estar recapitulando tudo o que foi feito até aqui, com Ashley dando uma de suas melhores performances vocais, complementando perfeitamente a sonoridade épica da faixa e que finaliza Retro muito bem. 

É um erro achar que Wakeman só escreveu boas composições nos anos setenta, Retro é a prova disso. Não chega a ser uma obra prima, obviamente, mas é bastante sólido, onde ele mistura muito bem suas ideias modernas e traços do passado.

Os textos publicados na página do 80 Minutos representam exclusivamente a opinião do autor


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