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Resenha: Disintegration (1989)

Álbum de The Cure

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Profundidade, sensibilidade e depressão

Por: Tarcisio Lucas

05/12/2017

O The Cure é uma das bandas mais difíceis de se classificar. Ainda que a banda venha sendo destacada, desde sua origem, como um dos grandes pilares do pós-punk e do gótico - sendo que seu vocalista, Robert Smith, praticamente definiu a estética visual dos adeptos do estilo - verdade é que esse rótulo não é capaz de abarcar todos os lançamentos da banda. A própria banda rejeita fortemente ser chamada de "banda gótica".
No entanto, quando falamos de "Disintegration", o termo se aplica e se encaixa como uma luva. Trata-se, sim, de um disco de música gótica, da primeira à última faixa. Tudo aqui transpira a estética do estilo. Letras profundas, que abordam questão existenciais e filosóficas, sempre de um ponto de vista melancólico e fatalista. A imagem da banda, que opta por tons escuros nos figurinos e fotos de divulgação.

Mas vamos falar primeiramente das composições.
O que temos aqui são canções que foram lapidadas com cuidado e carinho. Todos os elementos, em absolutamente todas as músicas, se encaixam perfeitamente, seja do ponto de vista rítmico, tímbrico ou harmônico. São músicas que não possuem pressa alguma em mostrarem a que veio.
Temos longas introduções, com camadas de instrumentos que vão se sobrepondo, passo a passo, até atingirem um nível de tensão que impulsiona a própria composição para frente. O vocal de Robert Smith passeia por várias texturas e intenções, indo desde o muito sútil, como na música "Lullaby", até o desespero contido de " Pictures of You".
É um disco para ser ouvido à noite, de preferência sozinho. Também cai bem com dias de chuva e fins de tarde. Evite-o em casos de perdas pessoais, fins de relacionamentos e crises existenciais.
O álbum possui, segundo a banda, relações profundas com os discos "Pornography" e "Bloodflowers", tanto que a banda saiu em turnê tocando na íntegra esses 3 álbuns, o que rendeu um show absolutamente maravilhoso, lançado com título de "Trilogy", outro ítem essencial para quem gosta de boa música.
Um acréscimo deve ser feito a respeito dos timbres e das linhas realizadas pelo contrabaixo. Trata-se, na minha humilde opinião, de um dos maiores trabalhos já feitos para esse instrumento na história do rock.
 Deixe me explicar.
 Do ponto de vista da técnica, realmente são linhas bastante primárias, minimalistas e que não apresentam qualquer dificuldade para qualquer baixista mais tarimbado. Mas o ponto é: cada nota foi colocada a serviço da canção. Tudo foi feito pensando em enfatizar o momento em que a música estava, em criar um clima, e acima de tudo, uma experiência!
Poucas vezes na história da música a tristeza e a depressão foram utilizadas como combustível para a criatividade de forma tão intensa, tão visceral; mas isso é uma qualidade que a banda soube manter, mesmo nos discos que se afastam da estética gótica.

Realmente, não é um disco para todos. Mas aqueles que tiverem a coragem de encarar a si mesmos e refletirem sobre o "Disintegration" certamente terão uma experiência musical que poucas bandas poderiam proporcionar!

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