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Resenha: Djavan (1989)

Álbum de Djavan

MPB

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Navegando com soberania no oceano da MPB

Por: Marcel Z. Dio

02/08/2020

Após o sucesso de Luz, (a qual considero seu melhor álbum) e o ótimo sucessor Lilás, Djavan não conseguiu tanto sucesso comercial com Meu Lado (1986) e Não É Azul, mas É Mar (1987).
Para 1989 tirou o "Zap" da manga e lançou o trabalho homônimo, apelidado de Oceano - não precisamos explicar o porquê, não é ?.
Só que aos incautos é preciso dizer, esse Oceano era muito mais, pois o disco inteiro mantem canções de primor instrumental e as famosas letras djavanescas sobre amores e temas do tipo. Enfim, um clássico da MPB que fincou de forma pétrea seu nome no hall dos gigantes.

Faixas :

"Curumim" vem com levadas estranhas, assim como as letras, explora a modernidade com batidas indígenas.

"Oceano" como explicado acima, é o pai da coisa toda, o grande sucesso e quiça o auge comercial de Djavan. Diria perfeita em todos os sentidos, com arranjos de forte clima de música espanhola, até porque o solo tem as mãos de Paco de Lucia. Os graves são tocados por dois baixistas, no fletless o saudoso Arthur Maia, na marcação João Baptista.
O que poucos sabem é que Oceano foi gravado bem antes, na verdade cinco anos antes, ficando como esboço perdido em uma caixa de fitas. Foi quando a filha de Djavan fuçou algumas dessas fitas e ouviu a tal, (que a principio eram apenas trechos com letras em espanhol) e disse ao pai que aquilo era lindo, questionando o porquê de ele ter abandonado a canção. Djavan concordou e apostou, e quando voltou ao Brasil pegou a fita e fez a magia acontecer.

"Corisco" mistura R&B com lampejos de música nordestina, de uma forma única e sofisticada. E é claro que a parceria com Gilberto Gil contribuiu para que a peça ganhasse esse contorno.

"Vida Real" - Composição original de Nelson Motta, Chico Novarros e Michael Ribas, fica um tanto morna em sua calmaria de médio tempo. Apenas uma canção romântica de algo explorado em Não É Azul, Mas É Mar.

Em "Cigano" percebemos o quanto ele estava antenado na música contemporânea e sempre trabalhando com músicos de alto calibre. O smooth jazz opera sobre as batidas peculiares de violão, transformando a canção de letra absurdamente linda, em mais um clássico da MPB. Salvo engano, Cigano fez parte de alguma trilha de novela, como não gosto de novelas, não perdi tempo nessa pesquisa.

Fosse pra escolher a melhor obra lado B do cantor alagoano, certamente escolheria "Avião", falar a verdade, cabe a mim dizer que é a melhor do disco. Um samba sincopado e desenhado com as melhores levadas do mestre Luizão Maia. O teor da letra desdenha e chuta os fundilhos do amor autoritário e interesseiro, para troca-lo pelo ato da liberdade.

"Você Bem Sabe" é outra na parceria com Nelson Motta, um tanto triste pelos arranjos, que por momentos retornam a Lambada de Serpente, é só sacar o dedilhado para receber o efeito déjà vu, ou melhor, déja van.

"Mal de Mim" segue a mesma atmosfera de "Cigano", vertendo mais para o molde balada. Digo que é a melhor nesse formato, juntamente com Cair em Si. Também tema de novela, e, por favor não me perguntem qual ...

"Mil Vezes" encerra o álbum com arranjos alternativos. Não é das melhores, mas serve para fechar bem o ciclo. Atente-se para a belíssima condução do baixo fletless tocado por Arthur Maia.
É isso ! agora é só fazer um trocadilho com a canção final e ouvir mil vezes essa obra prima, que atualmente navega com poucos concorrentes no mar da MPB, que outrora foi um oceano Atlântico e hoje não passa de um riachinho travestido de indie pop.

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