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Resenha: Beginnings (1975)

Álbum de Steve Howe

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Como sempre, Howe está perfeito e irrepreensível, porém, há deslizes

Autor: Tiago Meneses

28/07/2020

Beginnings passa longe de ser uma das melhores ofertas que Steve Howe tem a oferecer em sua carreira solo – até porque sua carreira solo não é lá um mar de ótimos discos -, mas confesso que se comparado com o que achava deste disco em outrora, hoje não o vejo mais com tanta má vontade assim, e consigo lhe arrancar bons momentos. 

Uma coisa que deve ser dita aqui e que eu acho que nem deveria ser discutida. é que Steve Howe não é um bom vocalista, digo na função de principal, pois como vocal de apoio no Yes ao lado de Squire ele sempre trabalhou muito bem as harmonizações criadas. Isso às vezes soa até meio constrangedor, mas estamos falando da metade dos anos setenta, onde as gravadoras da época concediam uma licença para os artistas serem criativos mais do que em qualquer outro momento da história da música. Mas se por um lado a sua voz tira o brilho, é com o seu talento como guitarrista que o álbum ganha seus valiosos pontos. O álbum conta com a participação de dois membros do Yes, Alan White e Patrick Moraz e do ex membro, Bill Bruford, além de uma enorme lista de músicos convidados por Howe. 

“Doors Of Sleep” é a faixa que dá início ao disco, uma espécie de canção de amor, inclusive, parece ser uma homenagem à esposa de Howe. Nesta música, Howe toca guitarra e baixo, além de – infelizmente – também cantar, enquanto que White segura na bateria. No geral é uma música bonita, de melodias agradáveis e que desfilam muito bem pelo ar. “Australia” é mais uma faixa em que Howe solta a sua voz, além de tocar guitarra e baixo e ter Alan White na bateria. Novamente o resultado é de uma música bastante bonita e de melodia muito boa – existe uma versão dela instrumental só no violão que é bem diferente, mas muito boa também. O mais interessante aqui – como é de se esperar – é o trabalho de guitarra. A voz fraca de Howe é difícil passar despercebida, muito pelo contrário, às vezes soa não menos que desagradável. 

“The Nature Of The Sea” é a primeira faixa instrumental do disco, algo maravilhoso, pois não seremos obrigados a ouvir Howe cantando. Eu a acho uma peça muito interessante, possui ótimas passagens de guitarra e que são bem características de Howe. Muito bem construída, é certamente um dos melhores momentos do álbum. “Lost Symphony” é mais uma boa composição, tem em seu domínio uma influência jazzística, inclusive com um bom acréscimo de saxofone. Aqui ao menos a voz de Howe aparece menos. Em se tratando de momentos progressivos do álbum, este é um dos pontos alto. 

“Beginnings” é mais uma música instrumental e também a mais longa do álbum. É uma peça de música clássica com uma seção de acompanhamento de vários instrumentos musicais clássicos, incluindo cravo que é tocado por Moraz. Inclusive, Moraz faz um trabalho excelente a transformando em uma peça muito bem orquestrada. Howe aqui não quer necessariamente se preocupar em fazer um trabalho de guitarra ou violão – tanto que estes instrumentos são pouco acionados, mas simplesmente expressar o seu amor pela música clássica. 

“Will O' The Wisp” nos seus primeiros segundos eu achei que fosse entrar “Roundabout”, mas é outra música cantada por Howe e eu vou sempre falar o quanto que esse vocal nasal dele é irritante. Mas às vezes podemos ouvir duas vozes, mas eu não sei de quem é, chutaria que de Patrick Moraz. Aqui além de guitarra, Howe também toca baixo e moog, com White na bateria e Moraz no piano e mellotron. É um som legal e de trabalho de guitarra bastante distinto, mas no geral não é dos momentos mais atrativos do disco, é muito pelo contrário, um dos mais fracos. 

“Ram” é a menor faixa do álbum. Uma música acústica instrumental que podemos dizer ser algo na mesma linha de “Clap” ou “Mood for a Day” do Yes, onde apesar de não ser tão boa quanto às citadas, Howe faz uma ótima demonstração no violão – algo que ficou frequente em sua carreira com a banda ou solo.  “Pleasure Stole The Night” é mais uma música curta e desenvolvida em um estilo de balada. Uma música calma e agradável, com participações de vários outros vocais – ainda bem que todos melhores que Howe -, mas de qualquer forma, também não possui grandes momentos interessantes, sendo essa a principal razão pra considerar ela ao lado de “Will O' The Wisp” os dois momentos mais fracos do álbum. “Break Away From It All” é a última faixa do disco, um bom final. Bons momentos de guitarra e novamente vocais de apoio sem créditos. É aqui que podemos contar com a participação de Bruford na bateria. 

Uma conclusão óbvia que eu tirei deste disco desde a primeira vez que eu o ouvi, é que seria muito melhor se Howe tivesse convidado um vocalista ou mesmo fizesse um álbum 100% instrumental, pois sua voz é uma poluição muito grande pra ser ignorada. Não é bom quanto poderia ser, falta um pouco de coesão. Ainda que possua momentos ótimos e a técnica de Howe seja absolutamente perfeita e irrepreensível como sempre, no fim é no máximo um bom disco.

Os textos publicados na página do 80 Minutos representam exclusivamente a opinião do autor


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