Para os que respiram música assim como nós


Resenha: L'Araignée-Mal (1975)

Álbum de Atoll

Acessos: 298


Ótimo ponto de partida para interessados na cena progressiva sinfônica da França

Autor: Tiago Meneses

22/07/2020

Entre as bandas de rock progressivo surgidas na França dos anos setenta, com certeza a Atoll foi uma das estrelas mais brilhantes. L'Araignée-Mal é um dos melhores – para muitos o melhor – discos de rock progressivo francês daquele período. Mas de que tipo de rock progressivo eu estou falando? A música encontrada aqui é uma verdadeira amalgama de sons, podendo ser percebido às vezes algo de Ange e Pentacle. Há também uma boa mistura de jazz com fusion, além de um pouco de pinceladas de Yes e Genesis. Confesso que eu acho um pouco perigoso misturar tantas coisas assim, mas apesar de tudo, a banda conseguiu ser distinta e o resultado final foi maravilhoso. O disco é muito enérgico, mas também se “arrasta” com algumas seções suaves. 

“Le Photographe Exorciste” começa com um sintetizador acompanhado de uma marcação de baixo e prato, mas logo através das primeiras vozes a música entra em um clima onírico, mais precisamente, um pesadelo, marcando uma seção positivamente assustadora, tornando-se uma verdadeira loucura infernal através de uma teatralidade perturbadora, isso acaba fazendo com que haja uma comparação com a Ange. Apesar de soarem como a Ange de vez em quando, é bem claro que no fim das contas eles são mais impetuosos. Após a parte de mais tensão passar, a música entra em um clima mais contemplativo novamente através de sintetizador e um ritmo de marcha intermediária. No final, ainda tem algumas guitarras violentas que funcionam muito bem. 

“Cazotte N°1” é uma faixa instrumental desenvolvida em uma linha fusion bastante agressiva. A bateria é bastante ativa e os demais instrumentos parecem fazer ataques de maneira intercalada. Repleta de solos exagerados de guitarra, violino e sintetizador, fazendo em que alguns momentos o ouvinte lembre da Mahavishnu Orchestra ou mesmo Frank Zappa em seus discos mais aventureiros e que viajavam no jazz. Apesar de ser uma música muito bem desenhada, acho que ela de certa forma atrapalha um pouco o fluxo do álbum, sendo que nestes discos eu prefiro as músicas centradas por vocais. Talvez se fosse ao menos mais curta eu nem reclamaria de nada, isso porque eu amo fusion, apenas acho que não era o momento. 

“Le Voleur D'Extase” começa completamente diferente da faixa anterior, bastante delicada. Mas conforme ela vai se desenvolvendo, vai também entrando em terrenos mais pesados, com vocais cantados de uma maneira que me lembra a Magma, excelentes solos de sintetizadores e violino. No terceiro terço da faixa, a música que havia começado tão serena e suave, ganha um retorno ao estilo de “Cazotte N°1”, mas como é somente por um instante, o ataque instrumental desta vez soa muito mais eficaz. 

“L'Araignée-Mal” é o épico que compõe as quatro próximas faixas dando um total de mais de 20 minutos, cobrindo muitos climas sônicos desiguais. A variação é grande, onde encontramos colagens sonoras de palavras faladas de forma quase vanguardista até movimentos mais agitados de sintetizadores que nos lembram desde as bandas compatriotas do Atoll até nuances genesianas e de Yes. “L'Araignée-Mal” – segunda parte da suíte -, eu considero a minha parte preferida do álbum. Esta música passa uma sensação libertadora, os vocais são muito emocionais e soam com se estivessem sendo gritados do topo de uma montanha e as linhas de sintetizadores que o acompanham são muito cativantes. 

Em se tratando de rock progressivo francês feito nos anos setenta, não tem como negar que este é um dos melhores e certamente o melhor álbum da banda. Um ótimo ponto de partida para qualquer pessoa interessada na cena sinfônica francesa e também para os admiradores de jazz fusion.

Os textos publicados na página do 80 Minutos representam exclusivamente a opinião do autor


Compartilhe:

Comente: