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Resenha: Appaloosa (1969)

Álbum de Appaloosa

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Apesar de pouco lembrado, é daqueles discos que ajudam a consolidar um gênero

Por: Tiago Meneses

21/07/2020

Este disco leva em seu gênero um nome que foi bastante comum no final dos anos sessenta, o chamado folk barroco, que no fim das contas não era nada mais do que o folk rock misturado com ideias clássicas sinfônicas. Algo importante a ser frisado é que Al Kooper mesmo como apenas membro convidado, com seu dedo na produção e na música, foi peça importante para que o resultado obtido tornasse o disco um material influente, mesmo tendo uma passagem quase inexistente nas paradas americanas. 

Apesar de menos conhecido, este disco resume como poucos a cena folk-rock de Boston, de onde inclusive surgiram Earth Opera e James Taylor. Pra não deixar o gênero folk barroco tão isolado à Appaloosa, já li que em termos de música ele pode ser atribuído à Eleanor Rogby dos Beatles e Ruby Tuesday do Rolling Stones, além de artistas como Nick Drake, Donovan, John Martyn e Tim Buckley. Todas as faixas do disco são escritas pelo vocalista e guitarrista John Parker Compton, cujas composições são de nítidas evocações a Joni Mitchel – apesar de não ser sua única influência, claro. 

A faixa de abertura, “Tulu Rogers”, é uma peça folk bastante pastoral, com o grupo tocando violão, violino, violoncelo e baixo em uma essência mais pura e progressiva que a banda consegue fazer. “Pascal's Paradox” é outra música que segue a mesma linha com os quatro instrumentos flutuando sob os vocais. “Yesterday's Roads” já é uma música de sonoridade mais diferente, o baixo é mais alto e Al Kooper toca o piano “incontrolavelmente” – segundo palavras dele mesmo, que acaba dando para a música um clima delicioso e nostálgico. Destaque também para o violoncelo que dá certa solenidade. “Feathers” pode ser classificada muito bem como uma música pré-James Taylor, algo como um tipo de som que o cantor faria com muito mais sucesso que a Appaloosa, fato que eu nem precisaria estar escrevendo. 

Através de “Thoughts For Polly” a banda mostra um lado que pode agradar os mais interessados em uma sonoridade progressiva. Trata-se de um prog-folk com toques tanto clássicos quanto jazzísticos. Há um trabalho vertiginoso de saxofone feito por Fred Lipsius – membro do grupo Blood, Sweat & Tears -, que também é bastante ousado e progressivo. Com seus quase seis minutos, considero facilmente esta faixa como o destaque do álbum. Pra manter os comentários dentro da mesma linha musical, “Georgia Street” foi construída de uma maneira um pouco parecida com “Thoughts For Polly”, com arranjos semelhantes e ritmos inconstantes. 

“Bi-Weekly” foi uma música arranjada por Charlie Calello e teve que ser gravada em outro estúdio e que tivesse um espaço maior, para assim poder caber toda a orquestra completa. Foi pensada inicialmente para ser um hit-single, possui uma orquestração muito boa e intervenções de sax interessantes, mas o destaque mesmo é o órgão tocado por Al Kooper, principalmente por conta do final distinto que ele dá para a música. De certa forma podemos dizer que ela tem uma faixa equivalente no disco, “Now That I Want You” – também arranjada por Calello -, embora neste caso sendo tocada por uma banda de rock completa. Também orquestrada, é um dos momentos mais empolgantes do álbum, trabalho de corda rico e um piano discreto, mas muito bem feito. 

“Glossolalia” é aquele tipo de som feito para quem é admirador do folk na linha do Donovan. Certamente podemos ver nela o momento de gloria do baixista David Reiser dentro do disco através de uma linha jazz excelente – só deveria ser um pouco mais alta. Mas é impossível não mencionar novamente o trabalho de cordas. “Rivers Run To The Sea” conta com a bateria de Bobby Colomby -  Blood, Sweat & Tears – e Al Kooper na guitarra elétrica em uma pegada que aproxima a banda a algo como Fairport Convention. “Rosalie” encerra o disco muito bem. Esta faixa foi originalmente apresentada durante muitos anos com uma simples música folk, mas Kooper colocou um piano e guitarra e fez com que a banda soasse novamente como algo próximo da Fairport Convention, mas mantendo um estilo country. 

O que a Appaloosa apresentou neste disco é algo que eu não classificaria como essencial, mas apesar de pouco lembrado, certamente é daqueles discos que ajudam a consolidar um gênero, podendo servir inclusive de modelo para muitos artistas que surgiram posteriormente. Destaque também para a produção de Al Kooper que é impecável.

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