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Resenha: Nurse (1992)

Álbum de Therapy?

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Maluquices agradáveis dos anos 90

Autor: Vitor Sobreira

06/07/2020

Como não se pode agradar a gregos e troianos, é fato que mais uma vez caí de paraquedas (ou sem qualquer tipo de proteção…) em uma audição que jamais pensei um dia dedicar minutos do meu precioso tempo. Seja como for, ao que parece estou diante de um dos principais trabalhos da banda norte-irlandesa Therapy?, ‘Nurse’. Vamos descobrir que “trem” é esse?

Apesar da junção dos dois primeiros EPs no álbum ‘Caucasian Psychosis’, para o mercado estadunidense, ‘Nurse’ acaba sendo o primeiro full length da banda, em termos técnicos. Eu sei que ficou meio confuso, mas não se atentem a esses pequenos detalhes. O que interessa é que o trabalho foi lançado no dia 02 de novembro de 1992 pela A&M Records e é algo bastante peculiar em um primeiro contato. Aliás, nem tanto, se você conhece (ao menos superficialmente) bandas malucas como Voivod, por exemplo.

Buscando informações sobre a banda (por alto), nota-se que está relacionada com os gêneros Alternative Metal/Rock, Grunge, Industrial, Punk e Noise Rock, porém, ao começar a ouvir, é fato que a banda – intencionalmente ou não – deu um jeito de pegar elementos de cada um deles (nem que seja apenas em uma breve passagem instrumental), bater em um liquidificador e esparramar tudo em uma extensão de aproximadamente 40 minutos de música! Diversidade, por sua vez, é uma qualidade sempre bem-vinda em qualquer trabalho.

O trio Andy Cairns (vocal e guitarra), Michael McKeegan (baixo e guitarra) e Fyfe Ewing (bateria e vocal) deixaram a criatividade fluir livremente, o que é percebido logo na ótima abertura “Nausea”. Apesar do nome, a faixa nos faz começar a audição com o pé direito, mostrando que a preocupação por desconhecer a banda, aos poucos se evaporaria. Não que soe datado, ou que isso seja ruim, afinal de contas, mas “Teethgrinder” é aquele tipo de som que o ouvinte sabe que é dos anos 90 mesmo que desconhecesse as informações técnicas. No mais, a faixa tem um instrumental mais direto, limpo e com alguns efeitos nos hipnóticos vocais, que não parecem fazer qualquer tipo de sentido. Por sua vez, “Disgracelands” vai no caminho oposto, “normalizando” as linhas de voz e apostando inclusive em um refrão daqueles feitos para grudar mesmo. Destaque ainda para os riffs de guitarra!

Fazendo jus ao título, a curta e grossa “Accelerator” certamente fez o baterista Fyfe Ewing suar um pouco mais, já que o kit do instrumento não teve tempo para respirar durante 2 minutos! Reduzindo alguns ‘bpm’, a onda experimental (eu sei que parece pleonasmo eu utilizar essa palavra no texto, mas é inevitável… me deem um desconto, ok?!) em “Neck Freak” não deixa o Metal de lado e ainda foi capaz de criar um clima tenso e poderoso.

Em “Perversonality” senti falta de batidas percussivas mais fortes, com uma captação sonora que destacasse de maneira equilibrada a intensidade da bateria, mas nada de preocupante, apenas uma observação pessoal, de uma faixa que repete a fórmula de loucura seguida em “Teethgrinder”. Ainda relembrando de características citadas anteriormente, lembra-se o que eu comentei sobre “diversidade”? Então, como se quisesse dar um breve descanso para os ouvidos, “Gone” deixa o peso de lado, porém também não se escora em camadas de melodias comercias… Eu não diria sombrio, mas beira essa carga emocional, expressada pelos acordes finais. O experimentalismo é fundamentado e dinamicamente calculado na sonoridade do Therapy?, e isso está bem explicito – mesmo para quem está conhecendo sua sonoridade agora.

Andy Cairns conseguiu extrair notas bastante profundas de sua guitarra, sem, porém, deixar a musicalidade geral decadentemente obscura. Mas qual o motivo dessa outra observação? Ouça a breve “Zipless”, apenas isso. Um vago eco rítmico de um raggae (ou algum estilo semelhante) intoxicado assombra em “Deep Sleep”, e mesmo dando a impressão inicial de “mas que p#@#a é essa?”, incrivelmente não negativa o tracklist! Mais incrível ainda é chegar em “Hypermania” – que apesar de seguir a mesma fórmula das demais, funcionou bem como faixa de encerramento – sem se dar conta que o tempo passou voando. Sinal de que foi uma audição com 100% de aproveitamento e altamente indicada a quem busca por algo diferente, criativo, ousado (muito ousado!) e sim, agradável!

Os textos publicados na página do 80 Minutos representam exclusivamente a opinião do autor


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