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Resenha: 51st State (1986)

Álbum de New Model Army

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Quinquagésimo Primeiro Estado

Por: meanders2001

04/07/2020

Quatro de julho de 2020. Independência da América... Leia-se United States of... Que dizer dessa data que o resto do mundo (e de "restos", considere tudo que não seja os Estados Unidos da América) não comemora, mas de que, menos ou mais, todos os países ainda pegam no bolo, seja a cereja ou a raspa de fundo, lambuzando os dedos, literalmente?
Pois é aí que ocorre que, mesmo com a República Popular da China mais recentemente, manobrando peças no tabuleiro geopoĺitico e todo o cenário pandêmico a perdurar, tal termo ainda se aplica a este cenário de exaltação/submissão aos ditames que a potência político militar estadunidense exerce sobre os demais. 

Então, o 51o. Estado, num contexto de posicionamento no mapa de poderes, após a anexação em 1959, dos territórios do Alaska e do Hawaii, tem a carga própria de quem se aliou aos EUA contra quem não, em tempos de Guerra Fria, recém instalada. E, em 1986, com New Model Army, já em plena Era Thatcher, mas ainda nos breves anos que antecederiam a queda do muro de Berlin e o susposto fim da paranoia armamentista nuclear, em forma de canção, renova, no caso a crítica, ao estado de glorificação cega que mesmo na Inglaterra, enquanto anterior império daqueles vastos territórios Yankees, se fazia necessário anotar. Um video clip do Quinquagésimo Primeiro Estado foi gravado de modo a deixar evidentes imagens nesse sentido, inclusive com tomadas à frente da embaixada dos EUA, em solo do Reino Unido.

É atribuída inclusive à música, uma das razões pelas quais NMA foi banida pela American Music Union, ainda que o single 51st State tendo alcançado o UK Single Chart Top100, sendo também Top75 no Music Week. Coisa que à época já se repetia por quatro vezes. Mesmo antes, o Departamento de Immigração dos EUA , já lhes negava a emissão de vistos, algo que perdurou até o final de 86, sob alegação de falta de mérito artístico, atrasando a tour Ghost of Cain para os EUA. New Model Army ainda que sob contrato por multinacional até os idos de 1994, só retornaria às terras de Tio Sam já nos anos 2000.

Interessante notar que 51st State continua até hoje como a canção ícone da banda e é a única cuja composição é compartilhada com alguém que não chegou a ser do line up: Ashley Cartwright, citado por Justin Sullivan com muita reverência e devidamente creditado, foi ao que o fundador de New Model Army declarou, em 2016: "uma figura rara que combinava a atitude [raivosa e desajustada, ímpar quando se é jovem] com imenso senso de amor, sagacidade e humor, a inextinguível sede de conhecimento e desejo de criar." Ao que ele diz isso, acrescenta que pelo menos duas outras de suas canções são inspiradas por tal raro ser e 51st foi legado da banda (The Shakes) que Cartwright encerrou em 1983 e passou a ser desenvolvida ao vivo por NMA, até ser, então, gravada e se tornar o hino que é até hoje.

E o que dizer do "Lado B"? Pra melhorar, ao se tratar da versão EP 12", há 3 pérolas dos setlists de New Model Army que mesmo recentemente, se fazem marcantes nas apresentações.
Em versões excelentes ao vivo, temos A Liberal Education e No Man's Land, dos primeiros registros e a faixa título do segundo álbum, No Rest For the Wicked. Essenciais, porém, com o destaque para "LibEd", grafada assim pelo próprio Sullivan, cuja sonoridade ficou magnífica e tornou a carga emocional dessa balada resignatória ainda mais poderosa do que na gravação de estúdio.

O disco ainda tem a "faixa b", de fato, em Ten Commandments, que ficou relegada à música previamente não lançada em demais álbuns até a edição da compilação B sides and Abandoned Tracks, já em 1994. Arriscando o palpite de que músicas desse mesmo naipe, num "Top5 Ladobético Inédito", entre fãs da banda, faria bonito: dentre cada 10 conhecedores da discografia, 5 a colocariam entre os 5 favoritos de todos os ladosbês NMA já lançados... e você, é um desses? Abandonada ou não, a banda diz que os Dez Mandamentos não vingou para o Ghost of Cain pois Glyn Johns nunca gostou, dando razão a ele, provavelmente...
O que dizer? "Me curvarei para a terra, Curvarei para o mar, curvarei para o amor entre você e eu, Curvarei para o sol, curvarei para a solo, Mas nunca para um deus feito à imagem do homem"

Nesses tempos de pandemia, realmente, ainda precisamos nos curvar às forças da natureza e às descobertas da ciência e à nossa capacidade de amar e utilizar a razão na resiliência. E nos livrar de contos de falsos profetas com suas mentiras messiânicas e seus poderes tentaculares que mantém muitos no planeta, atualizados ao status de um Estado Dependente.

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