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Resenha: The Breaking Of The World (2015)

Álbum de Glass Hammer

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Elementos de prog clássico para criar sonoridade

Autor: Roberto Rillo Bíscaro

13/11/2017

Quando o rock progressivo era subgênero criticamente hegemônico, na metade primeira dos 70’s, os grupos/artistas principais tinham características próprias, podendo-se falar em sonoridade do Genesis, Yes, ELP, Mike Oldfield, Magma, Jethro Tull. A ventania punk e a febre da disco music sopraram o prog para o underground, mas seu som passou a constituir capítulos da gramática do rock. Idiossincrasias e cacoetes sônico-estiliísticos entraram para o repertório ao alcance das bandas novas, que podiam usá-los pra clonar clássicos ou recombiná-los a fim de originar sonoridades próprias.
O veterano Glass Hammer começou a existir quando as bandas-madrinhas do prog eram defuntas ou dinossauras, no início dos 90’s. Sua fama de clonar o Yes não é de todo desmerecida, uma vez que em 2012, um de seus vocalistas, Jon Davison, foi convidado a substituir Jon Anderson no venerável combo britânico.

The Breaking of the World, que os norte-americanos lançaram em 2015, sem Davison, não pode ser acusado de clonagem, porém. Nas 9 canções, o Glass Hammer rearranja características e tiques nervosos de diversos medalhões prog para criar sonoridade própria, resultando em trabalho, que na maioria das músicas leva o ouvinte ao mais excitante do prog sinfônico de matriz setentista.

Mythopeia abre com teclado genesiano e a voz de Carl Groves e bastante do instrumental remetendo ao Yes, mas o resultado é Glass Hammer não imitando ninguém, mas inserindo-se numa tradição da qual se orgulha em participar e nós ouvintes, em amar. No meio do caminho, Mythopeia torna-se acústica para depois retomar seus teclados vintage à Yes.

A longa Third Floor é o epicentro desse álbum sofisticado. O tema não poderia ser mais sci fi, por isso, mais caro a fãs prog: a história do amor impossível entre um homem e um elevador. Seus extáticos 11 minutos têm teclados à Genesis, fase Foxtrot, voos de guitarra e teclados, mudanças de andamento, introspecção de piano e vocais exuberantes divididos em 3, inclusive a linda voz de Susie Bogdanowicz, fazendo o papel do elevador. Sem dúvida, um dos pontos altos na já longa história do grupo.

Em Babyloon, a tradição prog cristaliza-se até na letra; quer mais anos 70 do que citar, por exemplo, o cruzamento do Rubicão? Quer coisa mais Triumvirat, que nomeou álbuns como Pompeii (1977), Mediterranean Tales (1972) e Spartacus (1975)? Além disso, há uma alusão a cruzar o “point of no return”. Que progmaníaco não fará a conexão com Point of Know Return (1977), do Kansas? O teclado fluente acoplado a flautas malucas à Ian Anderson a faz um dos pontos altos de The Breaking of the World.

O menos de um minuto de A Bird When It Sneezes nos leva de volta Canterbury e a batalha entre violino e órgão nervoso, resgata Jean Luc Ponty e ELP, mas tudo jogado no liquidificador e batido como Glass Hammer.

The Breaking of the World tem seu quinhão de fillers, mas em sua maior parte é excitante e mais do que indicado para fãs do velho e duro de matar prog sinfônico.

Os textos publicados na página do 80 Minutos representam exclusivamente a opinião do autor


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