Para os que respiram música assim como nós


Resenha: Roberto Carlos (1972)

Álbum de Roberto Carlos

Acessos: 118


Intenso e profundo

Autor: Fábio Arthur

02/07/2020

Essa sequência da fase iniciada no álbum anterior em que marca a fase mais romantizada de Roberto, saindo de vez do som mais acessível e "puritano" e entrando no momento de carreira bem fértil, o artista seria ainda mais profundo em 1972.

Entre o MPB e o romântico, o cantor se valeu de um repertório que ainda lembra o álbum antecessor, mas nas questões líricas, Roberto chegou fundo do âmago em uma elaboração tão intensa e forte,que o passeio por sua vida pessoal se torna muito chocante e nos faz refletir por sobre as composições.

Certamente um disco autobiográfico e sofrido. A arte de capa, uma versão do disco anterior, mas agora com a foto estampada sem efeitos e mostrando a face sofrida do artista, talvez fosse um momento necessário para o artista colocar para fora os fantasmas do passado. Fato é que os elementos retém uma força muito elementar e deixa o ouvinte muito emocionado.

O disco obteve o sucesso merecido, mesmo dentro dos fatos estabelecidos entre letras fortes e elaboradas juntamente com Erasmo, e que de fato o trabalho mostra mais um avanço na carreira, com toda a coisa fluindo de forma incisiva. 

"A Janela" traz uma analogia do cantor em sua vida pessoal, anos antes, em que o mesmo quer sair de casa e enfrentar o mundo. Parece que o ouvinte tem a mesma vontade quando ouve a faixa e seus arranjos fortes e se depara com uma letra forte e regada em uma interpretação de teores profundos. "Como vai Você" de Antônio Marcos estourou na voz de Roberto. A adaptação do cantor surtiu o efeito de que era necessário para alavancar a canção que, com sua letra linda, ficou ainda melhor com Roberto. "Você é Linda" traz a menção a uma mulher desconhecida e que espera um filho, mas ela acaba por ser uma pessoa solitária. "Acalanto" é uma versão da canção da família Caymmi que, na voz e interpretação de Roberto, ganhou outro teor. "Negra", de Carlos Colla, que sempre colaborou com Roberto daqui adiante, traz mais uma bela faixa. "Por Amor" é outro momento bem profundo, e em "A Distância", Roberto se sobressai de forma maravilhosa a canção explodiu em sucesso e acaba sendo uma peça ótima do álbum. "A Montanha", em que o cantor aqui agradece a Cristo por tudo em sua vida, e nesse momento o artista estava impulsionado pela Fé e não mais pelo movimento musical Gospel. "Você já me Esqueceu" também ficou ótima na regravação de Roberto Carlos e que traz a intensidade da interpretação do mesmo. "Quando as crianças saírem de Férias" mostra o cotidiano em ter a parceira e tempo integral ao seu lado, a dificuldade de se amar estando cercado pelos filhos e que seria possível melhorar a arte de amar quando os garotos forem de férias e o casal ficar sozinho em casa. "O Divã", onde Roberto narra de forma profunda e em dor o acidente quando garoto, e tantos outros momentos da faixa ele passeia por momentos já adulto tentando superar o tal fato. Em uma das partes ele narra: "Eu venho aqui e me deito e falo, para você que só escuta e não entende à minha luta, mas afinal de que me queixo, são problemas superados". Forte e intensa, eu confesso ao leitor que não posso ouvir essa canção, pois me deixa muito emocionado e as lágrimas vêm de forma a não cessar e me deixar totalmente sem chão. Quando eu comprei o vinil, eu raramente a ouvia. "Mas Agora eu Sei" fecha o disco em uma fonte de melodias intensas e com frases lindas musicais. 

Quando eu resenhei sobre o disco anterior a esse, eu citei que, na faixa "Amada Amante", Roberto estaria de certa forma se despedindo de sua antiga maneira de compor, e cantar e esse disco provou isso de maneira forte, que ele ainda seria a ponta de um mergulho total ao romantismo.

Daqui em adiante, Roberto ainda faria outros discos na mesma linha, mas não tão pessoais. Isso foi um fato mais isolado desse disco de 1972.

Os textos publicados na página do 80 Minutos representam exclusivamente a opinião do autor


Compartilhe:

Comente: