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Resenha: 21 (2011)

Álbum de Adele

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Um álbum que permite que você dite seu nível de envolvimento emocional

Por: Tiago Meneses

01/07/2020

Se existe algo que eu posso falar com conhecimento de causa é que muitas das minhas melhores escritas surgiram a partir de momentos de muita angústia e de uma depressão ferrenha. Sempre tive na minha cabeça que se existe uma maneira mais fácil de lidar com esse tipo de dor, é ir anotando tudo durante o árduo caminho, limpando-se dos fantasmas internos da melhor maneira possível. É certo que nas mãos dos melhores letristas, aquilo que podemos ver como apenas excreções mentais, podem facilmente se tornar músicas sinceras e de parar ou mudar as batidas do coração. 

Mas e quando essas palavras são colocadas nas mãos de grandes artistas? Creio que não possa existir uma combinação melhor. Essas palavras tão fortes e surpreendentes, ainda precisam de algo para atingir as pessoas com 100% de sua capacidade, sendo esse algo uma bela paisagem sonora e um artista que consiga cantar de coração aberto. Adele se enquadra exatamente em um destes artistas. Com apenas 21 anos (daí também o nome do disco), Adele se comporta parecendo ter pelo menos o dobro de sua idade, tamanha a maturidade com que ela desfila sua voz durante todo o disco. Certa vez vi um jornalista que infelizmente não recordo seu nome, falando algo interessante, “em 21, Adele parece usar rédeas em sua voz, conseguindo puxar o ouvinte para o lado dela sempre que canta”, concordo em gênero, número e grau. 

“Rolling in the Deep” não é apenas a música de abertura do disco, mas uma das suas mais conhecidas, o primeiro single do álbum, além de uma das mais premiadas canções de Adele. A sonoridade encontrada é algo que figura entre a música disco e o blues, mas dentro de uma atmosfera “dark”, como Adele gosta de muito de fazer. Um começo de álbum que não poderia ter sido melhor. “Rumour Has It” tem uma mistura entre soul e blues sobre uma cama de batidas que ficam na mesma constante durante praticamente a música toda – exceto por um momento que Adele canta quase solo. Vale mencionar também o refrão que é bastante animado e de fácil assimilação, podendo grudar na cabeça facilmente. 

“Turning Tabels” é uma belíssima balada ao piano e voz, além de algumas cordas de fundo, onde se mostra com bastante clareza a bela voz que Adele possui. Um momento mesmo que ainda sereno, é de grande energia por conta da forma emotiva que a canção é executada. “Don’t You Remember” é uma das músicas queridinhas do álbum entre os fãs da cantora. Provavelmente este seja o momento mais melódico de 21, Adele canta de maneira inspiradíssima, o refrão é encharcado de sentimento e os arranjos apesar de simples, aveludam o ouvido e afagam a alma. 

 “Set Fire To The Rain” provavelmente seja onde acontece um dos poucos – ou o único – deslizes do álbum, mas é bom deixar claro que Adele não tem culpa alguma, o problema aqui foi a produção exagerada demais, fazendo com que a voz ficasse um pouco menos natural – o que é um crime alguém com a voz da Adele ficar impedida de ter a sua voz natural em uma música. Ainda assim a cantora novamente faz o seu trabalho maravilhosamente bem, repleta de sentimento, onde novamente o ápice fica nos refrãos, que ganham uma força instrumental maior. “He Won’t Go” é uma faixa que pegou os seus dois pés e cravou na R&B, na minha opinião um dos melhores momentos do disco. Uma música naturalmente bela, onde Adele nem se esforça para cadenciar a faixa de forma elegante. Faixa muito bem arranjada e extremamente agradável de ouvir. 

“Take It All” é o momento gospel que Adele traz para o disco. Com um piano melódico que faz uma ótima cama instrumental para que a bela voz de Adele se destaque novamente. Em partes do refrão a faixa recebe um reforço de um coro que deixa tudo mais bonito ainda. “I'll Be Waiting” é a faixa que deve receber o prêmio de mais alegre do disco. Muito bem ritmada e alto astral, de certa forma, para alguns, pode ficar até meio deslocada dentro de 21, eu já acho muito interessante a ideia de um som de caráter otimista baseado na ideia de reatar o romance com um antigo amor. “One And Only”, depois da alegria da música anterior, traz o disco novamente para a sua atmosfera tradicional. Novamente Adele mergulha de cabeça no sentimentalismo do soul, cantando de forma branda, bela e de muita carga emocional. Um arranjo triste sob um pedido de alguém que necessita ser a única na vida daquele que ama. 

“Lovesong” é um cover do The Cure, uma banda que eu nunca consegui gostar, mas gostei da roupagem totalmente singular feita por Adele, uma linha quase que de bossa nova, cheio de sutileza onde novamente a cantora fez uma versão própria na hora de regravar música de outro artista. Já havia feito o mesmo com “Make You Feel My Love” do Bob Dylan. “Lovesongs” apesar de um cover pode facilmente ser considerado também um dos pontos alto do álbum. “Someone Like You” é outra das músicas mais conhecidas e também é a faixa que encerra o disco. Mais um momento piano e voz, seguindo a mesma fórmula das anteriores desse molde, onde a carca de sentimento é bem alta, podendo causar até mesmo arrepios por quem se deixar levar. Um final impecável de disco. 

Quando vejo falarem em 21 ou em Adele em geral, a única coisa que escuto é que se trata de um disco depressivo, triste e tudo mais, porém, tenho certeza absoluta de que ninguém vende 11 milhões de cópias de um álbum se a única coisa que você pode fazer enquanto o escuta é chorar. Se 21 alcançou um elevado nível de sucesso, é porque funciona muito bem em qualquer momento, como, por exemplo, música de fundo no trabalho ou música para ouvir em um engarrafamento de trânsito. É um álbum que permite que você dite seu nível de envolvimento emocional e não o sobrecarrega mais do que você precisa.

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