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Resenha: Strange Brotherhood (1998)

Álbum de New Model Army

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Aos 40 anos de uma carreira inquietante, tempo de revisitar a estranha irmandade

Autor: meanders2001

28/06/2020

Você pode não concordar, mas este é um trabalho espetacular. E não vim para convencê-lo disso. 

É tudo uma questão de contextualização. Em 2020, New Model Army sairia para comemorar seus 40 anos de trajetória em suas já celebradas longas turnês, desde os primórdios dos 80, quando então seu segundo disco, já pela EMI, consolidava um culto de seguidores e não daria mais descanso à maldade...

E ainda não estávamos em meados dos anos 80... essa fiel massa de seguidores se espalhava ilha britânica afora, fez em outros países além da própria Inglaterra, um séquito fiel a entoar que éramos todos o Quinquagésimo Primeiro Estado daquela América, que até hoje amamos e odiamos.

Aqui no Brasil, tivemos a formação dos leais escudeiros desse exército, muito graças ao já saudoso Kid Vinil e bem depois ao Iggor Cavalera que, com Justin Sullivan e o co fundador Robert Heaton, todos na primeira noite paulistana de NMA no Dama Xoc, toda a família, a tribo, nomeie como quiser, inclusive Joolz, exuberantemente em cabelos ruivos, circulando como um de nós pela pista, mas indisfarçável em sua arte, na igualmente memorável data do show de Sepultura diante do Pacaembu, lotado em seus arredores.

Sim, contexto: dali, 7 anos depois, encontraria a horda de seguidores em fim de turnê, essa Estranha Irmandade! Um álbum demorado, vindo de um período especialmente tumultuado. Um Long Goodbye. Não à toa, o disco dá início com Wonderful Way to Go, cuja leitura é a de como as extenuantes turnês podem lhe levar literalmente a um fim e que seja assim essa maravilha toda, como passou a ser entoada e presente na quase totalidade dos set lists, desde então. Mas, afinal, não era para ser maravilhosamente um, final? 

O disco, de fato, marcou o término da parceria de Sullivan e Rob Heaton, que indicou seu, à época, drum tech no lugar, quem passou a fazer as datas de promoção de Strange Brotherhood. E desde então, Michael Dean é o baterista, percussionista e compositor.

Sem destacar especificamente as demais faixas, basta dizer que somadas às 10 outras ainda não mencionadas, um total de uma dúzia de seletas gemas, sete foram escolhidas do Brotherhood, para estarem no track list do disco ao vivo que sucedeu a este. Se considerarmos a versão em LP triplo, então, são nove composições desse período, que vingaram novamente, de 26 faixas do "directo" ...And Nobody Else.  Que digam os detratores, que seria óbvio, em se tratando de shows da turnê imediatamente anterior, destacar a estas faixas. Além de que já havia um registro ao vivo anterior com os ditos "hits"...

É aí que se enganam os julgamentos mais apressados: 8 anos antes, o último registro de um álbum oficial pela gravadora majoritária EMI, o anagramático Raw Melody Men continha meia dúzia das gemas da tour Impurity do ano imediatamente anterior 1990/1991, o ano da banda em premiere brasuca. 

Diante de um intervalo que se seguiu desse abandono da EMI, em que brevemente, assinaram até outro álbum noutra major e estiveram em seguida, e até hoje, independentes, assinando como a gravadora própria Attack Attack, é um resultado que merece ser valorizado esse primeiro lançamento num momento conturbado e de incertezas, porém,  incessantemente nas estradas, que marcou o registro final de Strange Brotherhood. Sem fazer muitas contas mais, dá pra dizer que tocam até hoje, ao vivo, uma boa quantidade da produção colhida das penosas sessões que culminaram na Irmandade Estranha.

Cabe anotar que, discretamente e muito depois, houve até uma edição nacional através do catálogo da distribuidora europeia Ear Music, salvo engano, sendo lancada pela ST2, em talvez um milhar de cópias de cds apenas, que mal se notaram e nem se fez  coincidir com as demais vezes em que NMA esteve aqui. A segunda, mais de oito anos depois dos giros de Brotherhood encerrados e com pelo menos 3 outros álbuns subsequentes possíveis de serem promovidos mas, que continuariam apenas pelas edições importadas.

Enfim, inverno de 2020, Brasil: há coisa de dois invernos, New Model Army fazia o lançamento de Winter, em apenas duas datas paulistanas, a 4a. vez em terras da América sulista e Latina e que à ocasião, debutava também numa noite de blackout antes, em Buenos Aires. Sim, era preciso, tudo de forma inquietante e viva. Cantar como desde 1980 aos espíritos das Malvinas... Em 2018, num mês junino, mas ainda sem aquela imagem tipicamente invernal do hemisfério norte, já se sabia de 20 longos anos que Estranha Irmandade é essa que une os soldados desse insólito exército. É essa que venera uma banda que completa suas 4 décadas agora, de modo pandêmico. E que, em retrospectiva, precisa sempre recuperar a importância de sua longa história. 
 
Começar com Strange Brotherhood me parece uma escolha acertada para quem quer saber o que é o legado da banda num momento que explicava muito o que já havia sido percorrido e conquistado e se seguiu, ainda frutífero até ao que hoje é ainda o presente, com o lançamento de 2019, From Here.

Os textos publicados na página do 80 Minutos representam exclusivamente a opinião do autor


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