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Resenha: K.A (2004)

Álbum de Magma

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K.A é grooving, poderoso, emocional e belo envolto de uma atmosfera alienígena

Por: Tiago Meneses

15/06/2020

Apesar de K.A. (abreviação de Kohntarkosz Anteria), ter sido lançado em 2004, duas de suas músicas – “K.A I” e “K.A II” -, foram escritas na mesma época que M.D.K. e Kohntarkosz. Mas ao invés de liberá-las na época, no entanto, onde provavelmente seria ofuscada pelos dois discos amplamente considerados como os melhores da banda – pela maioria das pessoas ao menos até 2004, pois o próprio K.A colocaria uma dúvida maior na cabeça dos fãs. Vander esperou exatos trinta anos para deixar com que K.A. visse a luz do dia. 

O último disco lançado pela banda até aquele momento era o digamos, pouco inspirado Mekanïk Kommandöh de 1989, mas através de K.A a banda fez um retorno – ao estúdio, pois shows ela continuava fazendo esporadicamente – e lançou sem dúvida um dos melhores discos de retorno de sempre, embora não ache que seja retorno propriamente dito, já que as composições, como dito, são antigas, ou melhor, as duas primeiras são composições antigas.  

Se compararmos os outros discos da discografia da banda, o melhor lugar para colocar K.A seria entre o caos vocal operístico de M.D.K. e a atmosfera de construção lenta de Kohntarkosz, o que não é surpreendente quando você considera que o disco foi originalmente escrito para preencher a lacuna entre os dois. Como tal, os vocais são muitas vezes o instrumento dominante no álbum, lembrando M.D.K., mas sem tanto bombardeio. Em vez disso, eles criam uma beleza espiritual. 

“K.A. I” já começa o disco com bastante energia e originalidade. Christian Vander soa melhor do que nunca, além de que o coro com vozes femininas e masculinas é simplesmente incrível. Inicialmente pode até parecer um pouco repetitivo – eu mesmo achei isso -, mas a originalidade do conceito e uma performance incrível de piano faz com que em momento algum a faixa se torne algo entediante. Daquele tipo de som que em momento algum dar um descanso para o ouvinte. Cada segundo livre de música é coberto sem que exista qualquer espaço para que haja uma respiração. As mudanças de andamento não chegam a ser exatamente violentas, elas acontecem de forma mais gradual, mas ainda assim podem ser mais radicais do que o ouvinte pode estar esperando. Até mesmo os sons menos habituais da banda como assobios e chiados soam bastante coerentes. As passagens instrumentais são onde se pode encontrar um pouco de alivio em meio a tanta loucura. Isso é o que podemos chamar de o Zehul na sua melhor forma. 

“K.A II” começa de uma forma mais dramática e épica, com uma sonoridade bastante pomposa e cheia de brilho, inclusive pra um ouvinte mais casual isso possa parecer até meio excessivo, mas particularmente eu acho sensacional. Mesmo sendo tão frenética quanto a faixa de abertura, aqui a banda também adiciona várias passagens mais calmas, de atmosferas jazzísticas e de melodias belíssimas, mas nunca perdendo o “horror” típico. Novamente vale mencionar as misturas de vozes masculinas e femininas, criando um coro maravilhoso que lembram inclusive as óperas de Wagner. Novamente não existe nem mesmo um momento fraco que seja, arranjos são perfeitos desde o início até o fim. 

Então que o disco finaliza com o épico, “K.A III”, único material realmente composto na época para o disco. A diferença de fato em relação às outras é clara, ao contrario do que aconteceu com as músicas anteriores, aqui a banda começa com uma longa seção instrumental em que eles parecem estar criando uma atmosfera psicodélica que é interrompida somente pelo refrão feminino uivante e que fornece uma carga misteriosa, de certa forma bastante básico, mas ao mesmo tempo cheio de beleza e imaginação. Esta faixa tem mais de vinte minutos, então é de onde o ouvinte pode esperar mais surpresas no álbum.  Lá próximo dos oito minutos e após um momento de passagem de transição vibrante, os vocais estranhos – e muito bons – começam, passando de coro celestial para explosões tribais, o encontro entre vozes masculinas e femininas criam uma atmosfera bastante violenta, enquanto isso, Vander ajuda a criar essa cacofonia controlada com uma forte percussão. A banda está simplesmente incrível e mostra que o tempo não afetou ninguém e eles podem soar tão brilhantes quanto a trinta anos. Conforme a música vai passando, mais os vocais parecem se tornar agressivos, o canto dissonante é a regra geral aqui, simplesmente brilhante. Novamente um trabalho musical maravilhoso do começo ao fim. 

Ao longo dos seus quase cinquenta minutos, K.A apresenta sempre uma música intrigante e que jamais soa desinteressante. Nas músicas existem muitas partes que soam como uma ópera-rock, com ênfase maior na ópera. Trata-se de uma belíssima e enigmática jornada musical. Seria exagero afirmar que se trata do melhor disco da banda? Nenhum pouco, porém, assim como costuma acontecer com os discos do grupo, não espere uma audição fácil, principalmente se você não for um ouvinte muito assíduo da banda. Pode demorar um pouco para que ele cresça em você, mas quanto mais você estiver disposto a se deixar levar, mais rápido poderá degustar essa obra de arte em sua maior plenitude.

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