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Resenha: Ashes Against The Grain (2006)

Álbum de Agalloch

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Entre vocais sujos e mais limpos, grande dinâmica em suas seções instrumentais

Por: Tiago Meneses

10/06/2020

Quatro anos após o lançamento daquele considerado por muitos como a sua obra-prima, a Agalloch apareceu com o seu novo disco de inéditas, Ashes Against The Grain. Se em The Mantle a banda recorreu a alguns instrumentos e músicos de apoio para a criação do disco, em Ashes Against The Grain tudo aconteceu de maneira mais despojada. Deixando claro que despojado não quer dizer necessariamente um álbum sem pompa instrumental e se desenvolvendo mais acusticamente, também não o torna mais suave, significa apenas o uso de menos equipamento para produzir o som exigido pela banda. Por tanto, este álbum é decididamente mais elétrico e pesado do que The Mantle, com uma quantidade mínima de equipamentos para recriá-lo em conjunto. 

Bom, o som incomparavelmente e distinto que a banda é capaz de produzir é bastante evidente por todo o álbum, com nenhum dos músicos se excedendo ou oferecendo mais do que aquilo que o ambiente e a atmosfera lhe pedem. A maneira como as faixas são criadas a banda deixa claro que ninguém, exceto eles seriam capaz de reproduzi-las desta forma. Se você já tem certa familiaridade com os músicos, acho que já deve saber que eles gostam de compor mais em uma linha que demostre a criação de uma atmosfera única, em vez de tornar seus álbuns uma espécie de demonstração de proeza técnica. 

“Limbs” é a faixa que dá início à viagem de Ashes Against The Grain. Inicia-se de uma maneira alta e pesada, além de um tanto melódica. Com algumas passagens mais calmas, além de vocais sujo. Em meio ao núcleo da música há uma explosão excelente. O trabalho de guitarra e bateria se desenvolve muito bem. Há uma linha mais silenciosa na parte final da música, onde ao voltar pra uma sonoridade enérgica, o clima de tristeza se torna brilhante. Um começo de disco bastante sólido. “Falling Snow” é uma daquelas faixas que parecem sair um pouco do padrão criado pela banda, mesmo que ocupe o mesmo universo. Possui uma abertura sólida e segue bastante edificante – ás vezes eu acho que os vocais rasgados nem combinam muito bem com a música. Diferentemente do que ocorre na faixa de abertura, aqui podemos encontrar também um canto limpo. Uma música eclética e agradável. 

“This White Mountain on Which You Will Die” apesar de ser a faixa com nome mais longo no disco, também é a de duração mais curta. Uma pequena peça instrumental e minimalista bastante interessante. Interessante é a maneira com que ela prepara o ouvinte para a próxima faixa. “Fire Above, Ice Below” é a faixa mais longa do disco, com cerca de dez minutos e meio. Ela começa de maneira mais acústica, vocais limpos, suave e sussurrados, além de umas batidas sombrias e malignas. A música vai se construindo de uma maneira que de certa forma faz um aceno para The Mantle, pois soa quieta, triste e “preguiçosa” – falo isso tudo, mas de uma forma positiva. Entre as principais faixas do álbum, esta é certamente a mais suave. Dinâmica, a faixa vai acontecendo e nem nos deparamos quando chega aos mais de dez minutos e ela acaba. Mas caso não for atingido logo de primeira, aconselho mais algumas audições, pois existem momentos inspiradores e que se destacam de uma forma mais escondida e que nem sempre é notado inicialmente. “Not Unlike the Waves” é mais uma faixa com cerca de nove minutos. Têm os seus primeiros dois minutos baseados em uma repetição de guitarra sobre uma cadencia média de bateria que a princípio achei meio repetitivo, mas depois, mesmo sem que ele variasse muito, achei válida a duração de dois minutos antes que a música ficasse mais amena. Possui uma longa seção instrumental que é incrível, e quando os vocais retornam, o fazem em camadas, caindo e um efeito coral perfeito para a configuração da faixa. Talvez a Angalloch não seja uma banda tão acessível e fácil para apresentar a qualquer pessoa, mas esta faixa soa menos impactante com que a banda costuma apresentar. Considero facilmente uma das melhores composições do catálogo do grupo. 

Agora o que o álbum apresenta é uma trilogia chamada “Our Fortress Is Burning”. A primeira parte – que não tem título – é uma faixa instrumental de quase cinco minutos e meio. Começa com um piano bastante delicado, evoluindo para uma seção acompanhada de guitarra melódica, bateria simples e linhas de baixo interessantes. Possui uma vibração melancólica e até meio deprimente. A segunda parte chama-se, “Bloodbirds”, ela atua a partir da quietude da primeira parte, e no seu início, a guitarra melódica tocada de uma maneira absolutamente apaixonada. O vocal que entra somente perto dos quatro minutos, rouco e soa cheio de desespero e protesto, até que tudo se explode e os gritos mais tristes da música atingem o ouvinte. Seu final é bastante dramático e até mesmo cinematográfico, até que tudo se desvanece em alguns efeitos interessantes e que nos leva para a terceira e última parte. Sobre “The Grain” logo de cara é bom dizer que ela não segue a mesma estrutura das duas partes anteriores. Começa com alguns efeitos, transformando-se em uma seção bastante experimental, caótica e barulhenta. Lembra alguma coisa composta pelo Tangerine Dream. Inclusive, se alguém me mostrasse isso aqui sem que eu conhecesse, acreditaria ser um som grupo alemão. Somente por volta dos cinco minutos – a música tem sete – que as coisas suavizam um pouco. Apesar de parecer que essa “brincadeira” não tem substância suficiente para entreter por sete minutos, eu acho que a ideia foi válida e terminou o disco muito bem. 

Ainda que não tenha a excelência de The Mantle, estamos diante de um disco excelente. Uma grande variedade entre as músicas em si, além de um bom equilíbrio entre vocais sujos e mais limpos e grande dinâmica em suas seções instrumentais. Engraçado saber que a banda não gosta deste disco, eu nunca entendi muito as razões pra isso. Talvez os tipos de ouvintes pra quem eu mais indicaria Ashes Against The Grain, seria para os amantes do folk metal ou black metal, porém, tudo soa tão emocional, poderoso, envolvente e expressivo que o público alcançado pode ir muito além disso. Apenas não esqueçam de se despir  do seu preconceito antes de se aventurar em um disco como este.

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