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Resenha: Raw Sugar (2016)

Álbum de JJ Thames

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O doce amargor do blues

Por: Roberto Rillo Bíscaro

10/06/2020

Em setembro de 2016, saiu o segundo álbum, Raw Sugar, mais diversificado que o álbum de estreia, porque apresenta algumas canções mais energéticas e agitadas e com uma JJ Thames ainda mais senhora de seu poderio vocal; soltando a voz onde precisa, mas ainda sem cacoetes de diva esgoelante (não que se tenha algo contra). 

A crueza do açúcar do título pode ser comprovada no bluesão à BB King da faixa-título e de Bad Man, I Don’t Feel Nothing ou Woman Scorned. Um dos trunfos de Thames é manter a “crueza” do blues, mas temperá-lo com aquela diversidade que parte do público mais popificado tanto preza.

Nessas e em outras faixas, sobressai a guitarra do também produtor Eddie Cotton, mas jamais perde-se o foco: o destaque está na multinuançada voz de JJ. Como no predecessor, Raw Sugar abre com um spiritual clamando por proteção divina a uma jornada. Na origem escrava do blues, essas letras sempre tiveram duplo se sentido. A viagem pode ser a vida, mas também conta-se que nas plantações de algodão sulistas, os escravos usavam tais canções para combinar ou se referirem a planejadas fugas. Mito ou verdade, não sei, mas é bonito o significado. Ao lado desse blues mais tradicional, lufadas Motown em I Wanna Fall In Love ou a deslizante brisa What’s Going On(ica) de Leftovers, puro Marvin Gaye. A letra dessa contrapõe-se à subserviência ao macho do álbum anterior, posto que Thames canta querer bofe só dela; não se contenta com restos de outra. Essa assertividade já se manifestara no bluesão I’m Leavin’, onde ela abandona um relacionamento destrutivo. O quinhão autobiográfico revela-se na balada Plan B (Abortion Blues), sobre a dureza de se decidir pela interrupção de uma gravidez. Hold Me é uma valsa soul super 70’s e Hattie Pearl é rhythm’n’blues de orgulhar Ike and Tina Turner. Entre tanta coisa boa, o arraso fica para a balada soul Only Fool Was Me, onde Thames e o saxofone estraçalham.

Se seguir na linha ascendente indicada pelo par de álbuns, JJ Thames virará diva do blues, independentemente da grande mídia badalá-la.

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