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Resenha: Side Three (2006)

Álbum de Adrian Belew

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Fechando a trilogia com excelência

Autor: Tiago Meneses

06/06/2020

No ano de 2006, Adrian lançou o último disco da trilogia, no qual ele continua explorando muito bem um lado eclético e experimental. Ao longo dos dois discos anteriores, Belew passou por muitos estilos musicais diferentes, variando de composições ao estilo King Crimson, músicas mais descontraídas, eletrônicas entre outras. Em meio a isso tudo, uma coisa é certa: Adrian tem um estilo musical extremamente eclético. Como acontece nos discos anteriores, o músico é quem fornece quase toda a parte instrumental, mas também há espaço para que alguns amigos o ajudem a trazer mais profundidade no seu som. 

“Troubles” é a faixa de abertura do disco. Um começo de disco bastante forte e envolvente, com um gancho cativante e que atrai o ouvinte. Possui algumas palavras faladas pregando quase como rap e que são feitas por The Prophet Omega. Primeiramente admito que eu achei meio estranho, mas depois funcionou muito bem, de um jeito até divertido e engraçado. Uma faixa que mais do que mostrar a criatividade de Belew, também mostra o seu senso de humor.

“Incompetence Differerence” tem uma guitarra vibrante e com um pouco de suingue por cima de uma bateria eletrônica. Enquanto isso, Belew vai declamando a sua “poesia”, novamente estamos diante de um ritmo cativante. É um tipo de música que carrega um estilo que pode ser visto em trabalhos anteriores do King Crimson e Frank Zappa, utilizando novamente de uma sensação divertida para descrever os problemas de alguém com a tecnologia. A voz ao telefone no fundo da faixa é de Martha Belew, esposa de Adrian. 

“Water Turns to Wine” conta com a participação mais do que especial de Robert Fripp tocando uma guitarra de flauta, isso mesmo, você não leu errado, muito provavelmente deve ser uma das inúmeras invenções de Fripp. Este é um momento mais experimental, mas de certa forma ainda mantém uma acessibilidade e se trata de uma música bastante suave. Uma audição agradável e mesmo que possua alguns sons exclusivos, segue fácil de digerir na primeira audição mesmo. Falar que Fripp é surpreendente, creio que não seja nenhuma novidade. “Crunk” é uma faixa curta – a menor do álbum -, pesada e traz algumas loucuras feitas por Belew em sua guitarra. “Drive” é uma música que particularmente considero adorável. Seu  clima é quase ambiental, com um estilo mais experimental e novamente alguns “truques” de guitarra feitos por Belew. “Cinemusic” é outra faixa curta com pouco mais de um minuto e meio. Começa com um acorde no teclado sustentado por pedal e depois entra uma sonoridade de caixa musical, tendo espaço pra uma estranheza e barulhenta brincadeira. Uma faixa com um grande tom de suspense. 

Para este disco, Belew trouxe de volta o baixista Les Claypool e o baterista Danny Carey, ambos tocam com Adrian nas três primeiras faixas de Side Onde e aqui tocarão em mais duas. A primeira delas é “Whatever”, onde os três músicos estabelecem um ritmo bem interessante e peculiar. Os vocais soam como uma espécie de perguntas e respostas, com uma voz sendo tocava uma vez através de camadas, numa espécie de conversa. Enquanto isso, guitarra, baixo e bateria continuam destruindo tudo. “Men In Helicopters v4.0” usa de um moderado ritmo de marcha, acentuado por um trabalho de cordas e pelo vocal de Belew. Se levarmos em conta o trio de músicos envolvidos, essa música acaba se tornando uma grande e agradável surpresa. 

“Beat Box Car” é um aceno de volta à faixa “Beat Box Guitar” do Side One. A base é fornecida por uma bateria eletrônica e um loop de guitarra, enquanto tanto os sintetizadores quanto a guitarra de Belew espalham uma quantidade cativante de sons e batida. Há uma aparição repentina na segunda metade de música, a do mestre Mel Collins tocando um saxofone que combina bastante com a aura da música. “Truth Is” é mais uma das faixas que não chegam nem a dois minutos de duração. Apresenta um violão muito bonito, além de flautas bem encaixadas por Mel Collins e uma letra profunda. Uma música curta, mas que tem bastante coisa pra oferecer. A faixa seguinte é “The Red Bell Rides a Boomerang Across the Blue Constellation”, em algumas palavras de início, podemos defini-la como uma paisagem sonora muito interessante e experimental de ruídos grosseiros, bateria em estilo africano e mais ruídos eletrônicos. Apesar de ser bastante experimental, também consegue soar muito envolvente. “&” com o seu nome um tanto estranho é a faixa que encerra o disco. Novamente existe um aceno para uma das faixas do Side One, sendo neste caso, “Ampersand”. Belew pega o riff rock and roll de “Ampersand” e o distorce bastante para torna-la uma nova versão. É uma espécie de versão alternativa, mas que de tão diferente do original, se torna quase algo novo. 

Bom, em minha opinião, Side Three é o disco mais forte da série. Possui uma grande variedade de músicas e que de alguma forma podemos notar que são as que soam mais coesas entre os tracklist dos três álbuns. Outro ponto importante, se em Side One e Side Two eu achei que os discos foram muito curtos, aqui o álbum chega à marca dos quarenta minutos, o que considero outra grande vantagem sobre os demais. As músicas parecem mais completas e finalizadas, mesmo nas faixas mais curtas. Side Three de certa forma e em boas doses reúne tudo o que foi apresentado em seus predecessores, principalmente o lado menos complexo, mas ainda eclético. Essa série de álbuns eu acho essencial para quem está conhecendo a obra de Belew. Apesar de Side Three ser o melhor deles, escute logo os três de uma vez, não será tirado nem duas horas do seu tempo e vale muito a pena.

Os textos publicados na página do 80 Minutos representam exclusivamente a opinião do autor


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