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Resenha: Ira (2020)

Álbum de Ira!

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Ótimo regresso

Autor: Marcel Z. Dio

06/06/2020

Após um hiato de treze anos e desavenças entre integrantes, empresário e troca de farpas em entrevistas, o Ira surge com o álbum auto intitulado. 
Alem da conhecida dupla Nasi / Scandurra, temos dois integrantes novos, Evaristo Pádua (bateria) e Johnny Boy (baixo e teclados).

Bom, vamos lá, se o leitor ouviu o primeiro single : "O Amor Também faz Errar", talvez tenha sentido que não valeria acompanhar o novo trabalho. Novamente frisando que não entendo a linha de raciocínio em colocar tal som para vender o peixe a primeira vista. Digamos que seja uma semi-balada com letras da profundidade do CPM 22.
O que vem após é diferente e melhor, então, não desanime quanto ao resto, vai engrenar pra valer.

"Nossa Amizade" supera levemente o escorregão inicial. O tema pode ser encarado sobre a relação tumultuada entre Nasi e Scandurra. O que importa é que as roupas foram lavadas e os dois sentaram para fumar o cachimbo da paz, ainda bem.

Agora o carro começa a acelerar e temos um excelente rock blues em "Resposta", que vai tomando forma enquanto Scandurra sola sobre uma base marchada dos bons tempos de The Clash em London Calling. Tem muitos detalhes e alguns ganchos de Ennio Morricone. Fiquem a vontade em dizer que sou louco por captar coisas assim.

Ainda não saquei completamente a letra de "Mulheres a Frente da Tropa", quem sabe uma homenagem as mulheres guerreiras na luta do dia a dia, ou mesmo sobre a posição feminista. Sei que é singela, bela, e foge completamente da tradição do Ira. Basicamente feita em dedilhados, percussão e também alguns arranjos de cordas. A quem espera o antigo Ira, pode pular essa parte, aos de mente aberta, bom proveito!. 
O único desabono é o tempo esticado em seis minutos, poderia ser mais enxuta.

"Você Me Toca" é outra pérola a ser dissecada, ouvi tais notas antes, porem, não recordo de quem. Do mais, é um rockão pra ninguém botar defeito. Não tem o suingue de Vitrine Viva e sim um parentesco na condução vocal, ainda com um final excêntrico com brincadeira de vozes.

Com participação de Virginie Boutaud (Metrô), "Efeito Dominó" é uma balada um tanto angustiante e arrastada. Com a entrada de Virginie cantando em francês, Efeito Dominó ganha outra faceta, posto que inconscientemente vinculamos a obra do Pato Fu, o que fica evidente na cantoria alegre e cheia de : La la lás. Para quem admira baladas desse naipe, pode ir fundo. 

Chego ao ponto de adoração com "Chuto Pedras e Assovios". Ontem ouvi por nada menos que oito vezes seguidas, e olha que a muito tempo não cometia tal loucura. Algo especial nela ? - não sei dizer, sei que é simples como abrir a janela e ver o sol da manhã. A questão é isso, a simplicidade e composição que parece contar sobre alguém que não se importa com mais nada, que vive no mundo da Lua. Como um personagem Charlie Brown crescido, chutando suas pedras e olhando distante.
E os assovios? Ah, sim, esses tem parcela especial, dão um charme extra. 
Vai aqui a ressalva ao baixo estonteante de Johnny Boy, flertando os bons tempos da banda The Jam (uma das referencias do Ira). Prevejo baixistas tirando o instrumento da poeira para arranhar suas notas, falo por mim.

"Eu Desconfio de Mim", dedicado à memória do guitarrista britânico Andy Gill (1956 – 2020), pega o caminho de bases simples (marcadas) e densas, ainda com um efeito bacana de guitarra. A letra minimalista ao extremo, engata da forma necessária e outra vez o Ira acerta em cheio.

"O Homem Cordial Morreu" aparece bem em instrumentais firmes e arranjos orquestrados de forma light. Existe uma narrativa em seu interlúdio, com o contrabaixo fazendo o "assoalho".
Fala sobre o aprendizado diário, mudanças e de como agir sem desespero em situações difíceis. 

"A Torre" reflete evolução na sonoridade do Ira, desde os elegantes acordes iniciais dos graves, pontuações fantásticas de Scandurra e os vocais de Nasi, (mais do que nunca, revigorados). Na verdade o começo sinistro desenvolve-se nas melhores composições de surf music, assim como as trilhas de Pulp Fiction.

Bom, essa foi a impressão sobre o lançamento. Ouvirei novamente, porque que a obra pede isso, existem detalhes a serem resgatados. 
Para quem gosta de Ira, é um prato cheio, e aos que não são chegados, deem uma chance, pois esse entrega algo a mais. Só não vou dar o pulo do Gato, descubra por si.

Os textos publicados na página do 80 Minutos representam exclusivamente a opinião do autor


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