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Resenha: Virus (2020)

Álbum de Haken

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Confirmando-se como um dos grandes nomes do progressivo contemporâneo

Por: Tiago Meneses

04/06/2020

Já escrevi sobre os três primeiros discos do Haken aqui no site, textos sempre regados a elogios e mais elogios, até porque é exatamente isso que eles merecem, pela sua combinação perfeita entre o progressivo clássico e a escola moderna. É certo também que a trinca Aquarius, Visions e The Mountain possui um nível tão alto que seria impossível que a banda se mantivesse naquele nível sem desnivelar em momento algum. Affinity e Vector não encantaram muitos da mesma maneira – embora eu adore estes também -, mas sobre esses dois, deixo pra falar em suas respectivas resenhas. 

Algumas pessoas podem ligar o atual momento em que estamos vivendo, com o nome do disco, mas antes de alguém fazer essa ligação, eu já deixo claro que não passa de uma coincidência. Segundo palavras do próprio Ross Jennings – vocalista da banda -, os temas de Virus estão relacionados aos temas de Vector, sendo que o próprio Virus já estava sendo trabalhado na mesma época – isso nos créditos do encarte de Vector pode ser confirmado. Outro ponto que podemos notar em relação aos dois é a semelhanças no tipo de arte de suas capas. 

“Prosthetic” é a faixa de abertura do disco e também o seu primeiro single. Inicialmente já me deixou extremamente animado. Possui um ataque rápido, feroz e poderoso de guitarra de sete cordas pesadíssima, além de uma bateria que metralha o ouvinte em um trabalho contínuo e de extremo domínio. Vale mencionar também o refrão bastante forte e cativante. 

“Invasion” começa de uma maneira muito mais tranquila, mas como o Haken é uma banda que costuma impedir que a monotonia se estabeleça, a tensão criada pela banda mais pra frente é algo bastante palpável. Ótima música.  

“Carousel” é uma faixa com pouco mais de dez minutos e que só por isso eu já poderia dizer que é ótima, afinal, a banda sempre acerta nessas canções. A música tem muitas seções de qualidade, alguns bons aspectos pesados e um solo de guitarra destruidor. O espectro de estilos são bastante amplos e de várias camadas, sempre com ótimas melodias e refrão. Esta faixa eu creio que vai agradar principalmente quem tem o The Mountain como álbum preferido. 

“The Strain” é mais uma excelente faixa, os versos tem um funk até meio sedutor, o trabalho de guitarra desenvolvido aqui é simplesmente fantástico e a música como um todo possui um ritmo acelerado e extremamente interessante. Há uma transição bastante suave para a faixa seguinte. 

“Canary Yellow” surge pegando o final de “The Strain”, ainda que seja diminuindo a energia ela não sacrifica o ritmo. Abre com uma instrumentação e sonoridade bastante leve. O clima no geral aqui é onírico. É como se o sonho aqui seja uma espécie de colisão de mundos diferentes, como, por exemplo, do desespero e o da esperança. Amo o refrão dessa música, vontade de cantar bem alto. 

As próximas cinco faixas dão um total de mais ou menos dezessete minutos, sendo cada uma dessas faixas, uma parte de “Messiah Complex”. O que podemos chamar de coração do álbum inicia-se com “Ivory Tower”, uma música que é tão boa em seus quase quatro minutos, que eu gostaria que ela tivesse um épico próprio, tipo “Visions”. Melódica, memorável, peso em dose e momento certo, além de muito bem construída. “A Glutton for Punishment” é o segundo segmento do épico e mostra tudo intricadamente entrelaçado, repleto de guitarras e teclado executados de maneira clínica. Mais curta, é nitidamente mais focada na musicalidade da banda. A faixa mostra o quanto eles são habilidosos ao tocar as notas no tempo necessário e em perfeito uníssono. “Marigold” tem pouco mais de dois minutos, pode ser considerado o melhor movimento se olharmos para o contexto – embora em termos de som eu ainda goste mais de “Ivory Tower” -, possui um som remanescente da era Vision. Muito peso e técnica que  flui muito bem para a faixa seguinte. “The Sect” é uma continuação de dois minutos da faixa anterior. Riffs poderosos de guitarra, algumas sonoridades de videogame, como uma espécie de resumo de "Cockroach King". “Ectobius Rex” fecha essa trilha majestosa através de melodias memoráveis e poderosas muito bem combinadas com um pulso rítmico frenético e preciso. O solo de guitarra é bastante sofisticado. Há também uma referência à “Ivory Tower”. 

Depois de uma maravilhosa jornada, Virus se encerra com “Only Stars”. São pouco mais de dois minutos de linhas oníricas e que fazem deste um desfecho conciso. A melodia que é introduzida aqui, apareceu pela primeira vez na curta faixa de abertura de Vector, fechando o círculo que liga os dois discos de uma maneira bem silenciosa e assustadora. 

Bom, primeiramente é bom deixar claro que apesar de Virus ser um disco feito como uma continuação de Vector, ele também funciona muito bem como um álbum independente. Virus é um álbum que no meu ver vai agradar tanto os fãs mais antigos da banda, quanto os mais novos. Durante esses tempos sem precedentes de atividades fortemente restritas, e que afetaram tragicamente a vida de muitas pessoas e seus entes queridos em todo o planeta devido a um vírus letal, este vírus figurativo é algo mais benevolente, uma declaração musical profunda e poderosa.

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