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Resenha: Brave (1994)

Álbum de Marillion

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Ouça alto e com as luzes apagadas

Autor: André Luiz Paiz

01/06/2020

"Ouça alto e com as luzes apagadas". São os dizeres que estão na última página do encarte da minha versão de "Brave" em CD, comprada no final dos anos 90.

"Brave" é o terceiro álbum do Marillion da era Hogarth. Após a ótima aceitação de "Seasons End" e uma certa rejeição da abordagem mais orientada ao rádio de "Holidays in Eden", a banda decidiu novamente ousar e trazer um trabalho conceitual, além de explorar uma sonoridade diferente do que já tinham feito. Como resultado, temos um dos melhores trabalhos da carreira da banda.

Apesar de ser um trabalho que considero espetacular, "Brave" não tem total adoração dos fãs de Marillion. Alguns órfãos da era Fish ainda o rejeitam e fazem comparações injustas com os trabalhos do período Neo-Prog, aquele do início de carreira da banda. O disco é conceitual e foi idealizado ao redor de uma história vista por Steve Hogarth sobre uma garota que foi encontrada pela polícia vagando sobre uma ponte, a Severn Bridge, na Inglaterra. A menina não sabia quem era nem de onde tinha surgido, inclusive se recusando a sequer falar. Steve pegou a ideia e criou uma vida de escolhas ruins e desafios ao redor da garota, mostrando como ela chegou até ali e tudo o que teve que enfrentar.

Com uma história densa em mãos, a banda foi para a França, no castelo Marouatte, para dar início ao processo de produção do disco. O clima e ambiência do local estão estampados nas gravações e contribuíram muito com a mensagem contida nas canções. Incluíram também alguns sons gravados em uma caverna em um local próximo, técnica que viria a ser utilizada por grupos como o Radiohead no futuro. O engenheiro de som foi Dave Meegan, que trabalhou também em "Fugazi" e o resultado final é simplesmente encantador e tocante.

Se por um lado temos um álbum extremamente competente, por outro lado, "Brave" falhou comercialmente. Quando entrevistei Steve Hogarth aqui para o 80 Minutos, ele me disse que a EMI não soube vendê-lo, principalmente porque eram uma gravadora que estavam atrás de promover hits. Assim, esse disco é também considerado um estopim da relação entre banda e a gravadora EMI.

"Brave" atravessa por todas as facetas do Marillion, porém com maior ênfase em uma mistura dos dois primeiros já citados discos da era Hogarth, além de uma dose enorme de inspiração e uma abordagem mais progressiva. São onze faixas, porém algumas delas são desmembradas em temas com nomes separados, são os casos de "Goodbye to all That" - progressiva fantástica e densa, algo como fez o Porcupine Tree, "Alone again in the Lap of Luxury" - que possui melodia extremamente acessível mas sem perder a essência, e "The Great Escape" - que é simplesmente uma das maiores obras da história da banda, tamanha a emoção que ela traz. Além delas, temos algumas faixas que são como passagens feitas para permitir que o ouvinte mergulhe no clima do álbum. Nelas, o brilho fica por conta do grande Mark Kelly e os seus sintetizadores, caso das faixas "Bridge", "The Hollow Man" e "Brave".
O lado mais hard rock da banda é encontrado em "Paper Lies" e "Hard as Love", duas excelentes canções. Ambas fazem contrapeso positivo com as mais densas, brilhantes e emocionantes "Living with the Big Lie", "Runaway" e a já citada e mais acessível "Alone again in the Lap of Luxury". Por fim, o álbum é encerrado de maneira doce com a balada "Made Again", que traz em sua letra algo como se a garota estivesse acordando de um sonho ruim para um mundo e uma vida nova.

Além de Mark Kelly, é necessário citar o brilhantismo de Steve Rothery e seu timbre fantástico de guitarra, além da competência já conhecida de Ian Mosley (d) e Pete Trewavas (b). Obviamente vou falar de Steve Hogarth, o grande nome deste álbum. Se em algum momento você já duvidou da capacidade de interpretação deste cidadão, ouça este disco imediatamente e veja-o ao vivo nas edições lançadas em vídeo em que a banda toca "Brave" na íntegra. É imperdível.

Como disse anteriormente, "Brave" não é unanimidade, infelizmente. Mas, para mim, é um clássico absoluto. O Marillion tem grandes álbuns em ambas as fases, mas ainda torço muito para que a banda volte a produzir algo novamente neste formato.

Os textos publicados na página do 80 Minutos representam exclusivamente a opinião do autor


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