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Resenha: The Pros And Cons Of Hitch Hiking (1984)

Álbum de Roger Waters

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Não é o seu melhor esforço, mas é bom e costuma ser injustamente desprezado

Autor: Tiago Meneses

29/05/2020

Devo admitir que no começo, esse disco não era do tipo mais fácil de digerir, algo tão difícil como o que ocorre com o Final Cut. Mas diferentemente do que ocorre com Final Cut, The Pros & Cons of Hitchhiking carrega um tipo diferente de humor, algo ausente no disco do Pink Floyd e, embora não seja de uma maneira imediatamente aparente, nos shows da tour é quando de fato Waters faz com que este disco de fato ganhe vida, faça sentido, especialmente com a utilização de animações e personagens infláveis em segundo plano para sublinhar aqueles que são considerados os principais momentos do álbum. 

O conceito de The Pros & Cons of Hitchhiking foi desenvolvido por Waters em 1977 e apresentado ao Pink Floyd junto com um conceito alternativo. Por fim, o grupo escolheu a opção alternativa, que foi desenvolvida no The Wall. Waters decidiu desde cedo usar o que não foi escolhido pela banda como um projeto solo e, em 1983, ele revisitou esse conceito. A história se concentra nos sonhos de um homem em tempo real, durante os primeiros minutos da manhã, que se entrelaçam e saem de histórias interligadas. A história começa com o narrador tendo um pesadelo e, tematicamente, essa é a melhor maneira de descrever o que esse álbum é musical e liricamente: uma jornada longa, sombria e onírica. A maior parte deste álbum é tocada em menores, o que apenas contribui para o clima sombrio.

Com o tempo passei a achar esse disco um trabalho bastante criativo e cheio de pura angústia. O álbum em si é semelhante ao estilo abordado no The Wall, mas principalmente em Final Cut. Na verdade, muitas vezes a semelhança é gritante e parece que Waters está copiando ele mesmo. É impossível ouvir especialmente “4,47 Am (The Remains of Our Love)” e não lembrar de “Mother”. Mas ainda assim eu gosto das músicas feitas, com uma mistura de sussurros e gritos tão comuns nas composições de Waters. 

Antes de ouvir esse disco pela primeira vez, eu admito que estava com um preconceito bastante alto, achava que sequer iria conseguir ouvi-lo inteiro sem que eu pulasse algumas de suas faixas, mas a sua sonoridade meio prog blues e cheia de lamentações acabaram me atraindo, apesar de possuir um conceito ruim e que jamais seria lançado com o nome de Pink Floyd. 

Claro que eu não serei injusto ao ponto de não mencionar o incrível trabalho de guitarra de Eric Clapton, o hammond e violão de 12 cordas de Andy Brown, sem o qual o disco teria perdido muito e jamais seria o mesmo, além de claro, citar David Sanborn e toda a sua magia com o saxofone que acrescenta um sentimento que não deve faltar em nada que seja relacionado ao Pink Floyd. 

Não estamos diante de uma obra-prima, longe disso, mas este disco pode possuir mais valores do que muita gente imagina. A ideia é não exigir tanto dele, até porque nenhum dos membros do Floyd tem em sua carreira solo algum disco que eu chamaria de brilhante. Possui uma narrativa estilisticamente semelhante a que domina Final Cut, mas isso não é algo que eu trato como problema. Embora nenhuma faixa em si seja ruim, também nada além da faixa-título oferece ganchos melódicos que possamos chamar de memoráveis. Não é o seu melhor esforço, mas costuma é bom e costuma ser injustamente desprezado.

Os textos publicados na página do 80 Minutos representam exclusivamente a opinião do autor


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