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Resenha: Love Over Fear (2020)

Álbum de Pendragon

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Um dos pontos mais altos da carreira de uma das maiores bandas da cena neo prog

Autor: Tiago Meneses

28/05/2020

Eu costumo dizer que o Pendragon é uma banda basicamente de acertos, digo basicamente, pois acho que o grupo pisou na bola com o Kowtow em 1988. Mas também me pareceu uma banda quase sempre homogênea na qualidade – mas isso também não quer dizer que os discos soem iguais - dos seus discos, porém, quando ouvi Love Over Fear pela primeira vez, já senti algo diferente e que o colocava como o melhor álbum já lançado pela banda. Eu poderia estar me precipitando? Talvez sim, afinal, eu havia ouvido apenas uma vez, mas depois de passar alguns dias ouvindo o álbum, afirmo - agora com mais certeza - que não poderia estar mais certo, Love Over Fear é o melhor disco já feito pelo Pendragon, ao menos em minha opinião. 

Nick Barrett como de costume ficou a cargo de todas as letras do álbum, deixando claro desta vez como foi o processo de escrita e como um profundo envolvimento pessoal estava envolvido com seu material, o que significava que ele não podia simplesmente produzir o álbum por encomenda, e Love Over Fear deveria ser pensado e muito bem trabalhado. Nesse tempo, Barrett foi aplacado pelo acontecimento da triste morte do seu pai e sentia-se sufocado pelo amargo de tantas notícias ruins pelo mundo, principalmente na política, mas ainda assim, ele queria montar um álbum que celebrasse as maravilhas e coisas boas da vida. Mudou-se para a Cornualha, e enquanto seguiu gastando seu tempo com motociclismo, surf e caravanismo, desenvolveu as ideias de composição para Lover Over Fear nasceu. 

Além de optar por adotar um trabalho lírico mais otimista e positivo, digamos assim, Barrett também mostrou o desejo de retornar o som da banda à algumas paisagens mais sinfônicas – que vai do disco The World até o Not of This World. Isso de certa forma explica porque de eu ter me apaixonado tanto por esse disco, ele faz um retorno ao período da banda que inclui o meu material favorito deles, porém, sem deixar de mostrar a sua capacidade de progredir e se reinventar como sempre fizeram, permanecendo distintamente o Pendragon que conhecemos. Tão maravilhoso foi ouvir que ao mesmo tempo que a banda tira o melhor do seu legado, também oferece algo novo e vibrante. 

“Everything” começa uma batida rápida e um órgão com grande influência nos anos setenta, mas logo a música se direciona para o seu território mais familiar devido a guitarra característica de Barrett. Nessas primeiras audições, consigo achar um pouco de “Master of Illusion”. Logo na primeira faixa, fica bem claro que Clive Nolan terá mais espaço para flexionar seus dedos do que teve nos últimos trabalhos da banda. Outro ponto importante é a voz de Barrett que está com uma qualidade excelente. 

“Starfish And The Moon”, já que terminei falando da voz de Barrett, posso começar aqui dizendo que nesta faixa ele estende seu alcance com excelente controle dinâmico e mantém um vibrato delicado. Isso muito bem combinado com as melodias de piano e guitarra, além de um apoio de cordas, tudo torna essa balada um trabalho de extrema suavidade e beleza. 

“Truth And Lies” começa com uma guitarra que lembra um dos momentos mais agradáveis encontrados em Not of This World e uma melodia vocal que os mais fãs da banda podem reconhecer facilmente em “Come Home Jack”. É possível sentir o momento em que o solo de guitarra está chegando, inclusive, que solo mais maravilhoso. Jan-Vincent Velazco faz um trabalho de bateria excelente, soa sutil, delicado, discreto e trabalhando dentro e fora das batidas. Aos que são fãs do baterista Vinnie Colaiuta talvez seja mais fácil notar esses detalhes. Essa música é incrível. 

“360 Degrees” começa com um bandolim – ou seria um ukulelê? -, a banda então se transforma em uma espécie de folk/rock meio celta e que ainda conta com a cantora Zoe Devenish no violino. Ouvindo esse som podemos chegar a uma conclusão, considerando que Barrett se mudou para a Cornualha e que este álbum pode ser visto entre outras coisas, como uma espécie de carta de amor para o mar, a faixa tem um som muito bem ambientado e o ouvinte é aprisionado a uma espécie de pub costeiro. "360 Degrees” foi uma grata surpresa e uma faixa extremamente divertida que tenho certeza que será muito aplaudida e celebrada nos concertos da banda, pois além de tudo, é bastante alto astral. 

“Soul And The Sea” começa com uma ótima atmosfera e que mostra uma plataforma envolvente para que seja mostrado os talentos inquestionáveis da banda. Zoe Devenish é certamente uma violinista talentosa e seria muito bom que ela virasse um recurso mais recorrente nos trabalhos futuros da banda. Nolan e Velazco se destacam muito bem nesta faixa. Belíssima. 

“Eternal Light” a bateria e percussão de Velazco acompanha aquela que é certamente uma das melhores melodias do disco. Existe uma referência à faixa de abertura, “Everything”. “Eternal Light” se baseia em uma interação de guitarra e teclado que se transforma em algo – aos que conhecem bem a banda – que fica entre “The Voyager” e “A Man of Nomadic Traits”. 

“Water” é uma música que pode ser descrita de maneira bastante rápida. A faixa vai se construindo gradativamente como uma peça de atmosfera um pouco mais sombria do que mostrado até momento e tem como grande atrativo, mais um excelente solo de guitarra. 

“Whirlwind” é outra peça dedicada ao piano e certamente outra surpresa para o ouvinte. Possui alguns acordes com grande influencia no jazz. Julian Baker, outro convidado para participar do álbum, entrega um trabalho excelente de saxofone. Belíssima faixa. 

“Who Really Are We?” é a único momento do disco que podemos dizer que é um aceno para os seus álbuns mais recentes e pesados. Inclusive, esta soa tão semelhante a “Indigo” que eu fiquei esperando até o cachorro latir. Mais uma faixa excelente e que tem um pouco de tudo que a banda faz. 

“Afraid Of Everything” é a faixa que fecha o disco. Considero um encerramento extremamente belo e emotivo. A primeira metade com guitarra silenciosa, além um teclado atmosférico ao fundo, desenvolvendo a música com mundo afinco. Na segunda metade, o baixo e a bateria se juntam pra criarem um final de álbum belíssimo, através de um sintetizador imponente e dolorosamente maravilhoso. 

Ao mesmo tempo em que podemos enxergar referência em discos anteriores – entre o período que citei no começo -, também é cheio de novas e agradáveis surpresas, sendo um álbum onde é difícil não se deixar levar pela energia positiva tanto dos seus temas quanto seus tons. Acho difícil que não agrade qualquer fã da banda. Love Over Fear não possui um momento fraco que seja. Versos, refrãos e instrumentais são todos ricos em melodias, a instrumentação é extremamente maravilhosa e diversificada, além de possuir uma dinâmica variada e bem estruturada. Love Over Fear é sem a menor dúvida um dos pontos mais altos da carreira de uma das maiores bandas da cena neo progressiva.

Os textos publicados na página do 80 Minutos representam exclusivamente a opinião do autor


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