Para os que respiram música assim como nós


Resenha: Zarathustra (1973)

Álbum de Museo Rosenbach

Acessos: 57


Um dos melhores, mais criativos e originais discos do rock progressivo italiano

Autor: Tiago Meneses

22/05/2020

Indiscutivelmente, Zarathustra é um dos mais significativos feitos em termos de rock progressivo produzido na Itália, um clássico absoluto. Uma das mais brilhantes joias do rico e tempestuoso cenário musical daquele país. Zarathustra é um álbum conceitual filosófico baseado na famosa figura de Friedrich Nietzsche. Todos os seus temas são arranjados musicalmente: a denúncia das mentiras milenares da sociedade humana e o ideal de um Super-Homem, alguém que pode ir além de todos os mitos atuais, fundando novos valores verdadeiros e descobertos. Liberdade moral absoluta que não é como a reconstrução nazista tentou pensar, a proclamação da superioridade de uma raça em todas as outras. O Super-homem paradoxalmente nietzschiano não é alguém moral, mas alguém com grande senso de Verdadeira Moralidade, alguém que consegue distinguir entre o bem e o mal sem nenhum. 

Com um conceito complexo baseado em ideias de um dos mais conhecidos filósofos alemães, Zarathustra é um álbum excepcional, muito intrincado e bem feito. É um daqueles discos em que todos os amantes da música progressiva devem ouvir, uma verdadeira obra-prima pesada, melódica, inteligente e bastante atmosférica. 

O disco começa já com a faixa título, “Zarathustra”, com os seus cerca de vinte minutos, inicia o disco com tudo aquilo de melhor o disco terá a oferecer, tais como fortes influências clássicas e teclados poderosos em evidência, como na melhor tradição progressiva italiana. Existem cincos seções distintas nesse épico incrível, todas com excelentes transições, ritmo e continuidade estilística. A banda nunca se apressa nas coisas, nem deixa que elas “descansem” por muito tempo. Cada seção, seja suave, lenta e simples ou pesada, oscilante, rápida e complexa , é sempre construída para obter o efeito máximo, com um tempo mínimo (se houver) de "inatividade", algo maravilhoso. Os vocais podem não ser do tipo mais “imediato” como podemos ver em Jon Anderson ou Peter Gabriel, mas Stefano Galifi se move muito suave e sutil, usando da rouquidão natural em sua voz. Impressionante como a banda consegue transmitir a história de Nietzsche tanto na letra como na música. Por todos esses motivos, "Zarathustra" se destaca por ser um conjunto de conceitos incrivelmente criativo, muitas vezes brilhante e extremamente precoce.  

“Degli Uomini” tem o seu controle inicial assumido pelo mellotron. Mais da sua primeira metade é instrumental. Possui uma textura suave de órgão e violão pesado com explosões de bateria. Muda de humor e clima à medida que a peça se desenvolve. A guitarra principal é uma característica dominante na música, mas vale ressaltar também as incursões de órgãos que de alguma maneira me fazem lembrar Focus em algumas partes. 

“Della Natura” logo de início mostra que estamos diante de uma peça mais rápida através de bateria, baixo e órgãos frenéticos. Os vocais surgem de forma bastante gentil após a música amenizar, inclusive esses vocais faz lembrar os momentos mais românticos, digamos assim, da Le Orme. Depois há um breve interlúdio, até que a tensão desconstruída é resolvida em uma direção oposta. O coro representa partes vocais muito excêntricas. A certa altura, novamente a atmosfera se suaviza, repetindo o momento semelhante a Le Orme. 

“Dell'Eterno Ritorno” é a última música do disco. Uma faixa de guitarra mais pesada, com algumas figuras caóticas nos teclados, baixo e bateria. Considero uma maneira maravilhosa de encerrar esse disco clássico. Ela se estabelece em uma seção onírica com vocais bastante emocionais. Eventualmente a melodia mais trituradora vai voltando e depois apresenta uma marcha percussiva sobre uma frase de órgão. 

Zarathustra é um daqueles discos que fazem jus a sua reputação como mais um álbum que abre as portas da musicalidade convencional. Muita coisa acontece durante os seus quase quarenta minutos, e vale o tempo de qualquer um que queira se aventurar em uma música muito bem construída e detalhada. Um dos melhores, mais criativos e originais discos que saíram da Itália durante a sua era de ouro do rock progressivo. No fim das contas, palavras não podem refletir verdadeiramente a natureza dessa música. Uma jornada surpreendentemente viciante e deve ser frequentemente experimentada pra sugar cada vez sabores diferentes em seus nuances de sons.

Os textos publicados na página do 80 Minutos representam exclusivamente a opinião do autor


Compartilhe:

Comente: