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Resenha: La Coscienza Di Zeno (2011)

Álbum de La Coscienza Di Zeno

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Uma joia que se torna mais valiosa a cada audição

Autor: Tiago Meneses

21/05/2020

La Coscienza di Zeno faz parte das inúmeras bandas do rock progressivo italiano e que surgiram já no século XXI. Iniciou a sua formação em Gênova em 2007, por iniciativa de três músicos que naquela altura já poderiam ser considerados experientes, Gabriele Colombi no baixo, Andrea Orlando na bateria e Alessio Calandriello nos vocais. Mais tarde a formação foi concluída por Stefano Agnini (teclado), Davide Serpico (guitarra e violão) e Andrea Lotti (teclados e violão). O nome da banda é retirado do ladrilho de um romance famoso do escritor italiano Italo Svevo, A Consciência de Zeno, que se baseia na análise psicológica do protagonista, Zeno Cosini, um homem que tenta descobrir os motivos de sua fraqueza emocional.

A escolha deste nome partiu da ideia dos músicos que falavam que sentiam uma grande conexão entre o espirito dessa obra literária e o que eles estavam tentando expressar através de suas músicas e letras. A estreia da banda contou ainda com alguns convidados. O resultado final foi excelente, as fortes influências dos mestres italianos do rock progressivo dos anos setenta estão muito presentes, mas muito bem misturadas com um toque de tecnologia atualizada e um estilo original de composição. 

“Cronovisione”, faixa que abre o disco, é bastante melódica ao mesmo tempo que segue uma linha intrincada. Ecos de Yes durante algumas varreduras de sintetizadores mais arejados. As guitarras profundas nos fazem sentir um ar de Banco Del Mutuo Soccorso no som. Uma faixa bastante dinâmica principalmente por conta do trabalho de teclados duplos. 

“Gatto Lupesco” tem como um dos grandes atrativos o incrível alcance vocal e poder expressivo de Alessio Calandriello. O acompanhamento musical é uma variante entre o melancólico e o intenso, sendo muito bem impulsionados por ótimos teclados e uma bateria dramática. 

“Nei cerchi del legno” com os seus pouco mais de treze minutos é a faixa mais longa do disco. É uma música inspirada em parte no icônico conto de Pinóquio - um dos poucos exemplos da literatura italiana que tiveram ressonância internacional. Tem um formato não tão comum, sendo basicamente toda instrumental, com vocais aparecendo somente na sua parte final. Trata-se de uma música que possui vários trunfos, um deles são passagens sinfônicas imponentes e que ficam ainda mais exuberantes por conta da configurações aplicadas com teclados duplos e por arranjos de cordas. Há também algumas inserções jazzísticas e uma interação impressionante de guitarra e sintetizador. Simplesmente de tirar o fôlego. 

“Il fattore precipitante” segue aquela clássica rota do progressivo italiano, com salpicadas generosas de atmosferas genesianas, que são aguçadas por alguns ritmos pesados e ritmo intenso. Toda essa primordial tapeçaria instrumental é muito bem complementada pelo vocal sempre excelente. 

“Il Basilisco” de certa forma consegue mostrar uma mudança acentuada no humor e no estilo musical que foi desempenhado até aqui. Uma peça com influências folclóricas, cheia de melancolia que ainda é aprimorada pelo uso de acordeão, cortesia de Luca Scherani, musico convidado da Hostsonaten. O trabalho de violão dessa música é adorável. 

“Un insolito baratto alchemico” é uma faixa instrumental bastante requintada e intensa. A faixa justapõe seções mais silenciosas, com flautas e passagens tempestuosas de teclados muito bem temperados por riffs pesados de guitarra. Sem deixar de destacar que tudo é enriquecido por órgão solene e linhas de piano estimulantes. 

“Acustica Felina” é a segunda faixa mais longa do álbum. Ela reprisa o clima sinfônico virente encontrado no começo do disco, complementado por um profundo tom coral de mellotron. Os vocais de Calandriello novamente são ótimos e aborda a questão lírica desafiadora com excelente experiência, conseguindo caminhar de tons profundos para ameaçadores com bastante destreza. Vale mencionar também o excelente solo de guitarra. 

La Coscienza di Zeno mostrou não se incomodar nenhum pouco em homenagear a tradição do rock progressivo dos anos setenta, principalmente o italiano e o britânico. Mas eles o fizeram sempre mantendo na sua sonoridade os valores de produção e sua linha moderna que lhes oferecem profundidade e dimensão extras às músicas que são construindo de forma elegantemente complexa. Tudo foi muito bem desenvolvido e arquitetado com todo o cuidado que se deve ter, a fim de oferecer uma experiência completa ao ouvinte mais exigente. Em outras palavras – ainda que óbvias -, La Coscienza di Zeno é uma obrigação para todos os amantes de rock progressivo italiano, uma amostra do quão forte ainda é a cena de um dos países mais tradicionais do gênero. Uma joia que se torna mais valiosa a cada audição.

Os textos publicados na página do 80 Minutos representam exclusivamente a opinião do autor


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