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Resenha: Amarok (1990)

Álbum de Mike Oldfield

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É tanto detalhe, que Amarok proporciona ao ouvinte sempre uma experiência nova

Autor: Tiago Meneses

21/05/2020

Certamente ao ouvir o disco de Mike Oldfield, Amarok, não é difícil de imaginar que estamos diante de um dos maiores e melhores feitos do músico. Mas costumo dizer que apesar disso, não é um disco que eu indicaria pra todos, pois nele vemos Oldfield no seu mais complexo, inacessível e diria até que mais louco trabalho. O álbum tem exatamente uma hora de duração, mas para poder apreciá-lo, ou mesmo entendê-lo, eu sugiro que sejam investidas várias horas direcionadas a ele. Pode acontecer que o ouvinte até mesmo o odeie na primeira audição, não só na primeira, mas também algumas vezes depois, mas muito dessas pessoas podem depois serem recompensados com uma experiência auditiva sensacional. Mas deixo claro que isso não é uma regra, qualquer um pode ouvir o disco várias vezes, não gostar e ponto, o que estou falando é apenas pra frisar que Amarok é um tipo de trabalho que merece algumas chances antes que seja julgado. 

O disco possui apenas uma faixa, mas dividida em várias seções. O disco me parece ser livre para que o ouvinte o divida em quantas partes quiser e achar que soe mais coerente, eu particularmente o faço em três partes, com cada uma obviamente com mais ou menos cerca de vinte minutos. 

Qualquer um que tenha conhecimento de um pouco da carreira de Mike Oldfield já deve ter escutado que o músico chegou a considerar chamar Amarok de Ommadawn 2, onde de fato algumas semelhanças são impressionantes. Muitos dos mesmos temas, influência celta, momentos de world music e vocais meninos assombrosos. Lindos também são os trabalhos de guitarra e violão, acho inclusive que Oldfield nunca recebeu elogios condizentes com o qual ótimo guitarrista ele é. 

O estilo gera do álbum é bastante ingênuo, digamos assim, influenciado pela música folk, flamenco entre tantas outras. Ocasionalmente o clima que encontramos é pastoral, porém, essa serenidade costuma ser interrompida de tempos em tempos por vários tipo de efeitos, desde que a imaginação de Oldfield o permitisse, como sons de vidros quebrando, escovação de dentes, toque de telefone e uma pergunta que se repete várias vezes, “feliz?”. Com tantas coisas acontecendo, apesar do que às vezes falam sobre os álbuns de Mike Oldfield, este não é um disco pra fazer ninguém dormir. Na verdade, até mesmo o ambiente pastoral não se mostra completo, às vezes soa muito distante e reprimido, fazendo com que haja um tipo de tensão aqui. A segunda meia hora do disco certamente é muito mais rítmica e seja uma parte mais fácil de digerir. 

Em Amarok existem alguns temas simples e que abordam toda a composição, mas apesar dessa simplicidade relacional entre os temas, Amarok não se trata de uma composição simples como um todo. A música parece uma corrente com elos que se combinam perfeitamente bem, onde voltando o que disse no início, somente depois de inúmeras audições as conexões podem ser ouvidas e esclarecidas. 

Detalhar musicalmente esse disco é algo bastante difícil e cansativo – tanto pra quem escreve, quanto pra quem irá ler depois -, mas a essência do que é encontrado nele creio que estão relatadas nos parágrafos anteriores. Amarok proporciona o ouvinte sempre uma experiência nova, diferente, fazendo com que sempre seja descoberto um som, tema ou instrumento diferente. A profundidade do disco nos permite fazer uma comparação com mergulhadores que pulam no oceano e que vez ou outra sempre descobrem algo novo, tamanha a sua dimensão e diversidade. São tantos os detalhes, que costumo dizer que Amarok seria um excelente objeto de estudo em escolas de música para desenvolver as habilidades de escutas dos alunos. Resumindo se trata de um disco onde cada audição é uma descoberta, além de mostrar o quão gênio é Mike Oldfield.

Os textos publicados na página do 80 Minutos representam exclusivamente a opinião do autor


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