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Resenha: The Harrowing Of Hearts (2020)

Álbum de Blaze Of Perdition

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Um elaborado Black Metal polonês

Autor: Vitor Sobreira

19/05/2020

Pouco mais de dois anos após ‘Conscious Darkness’, a banda polonesa de Black Metal Blaze of Perdition está de volta com o seu quinto álbum oficial ‘The Harrowing of Hearts’, que foi lançado no dia 14 de fevereiro último, pela Metal Blade Records.

Para quem o nome da banda ainda possa soar estranho, suas origens remontam ao ano de 2004, quando atendia apenas por Perdition. A mudança (ou acréscimo, como queiram) de nome veio em 2007, junto com o fato de que as coisas realmente começaram a acontecer, pois se sob o nome anterior lançaram apenas demos, trabalhos mais relevantes seriam disponibilizados em parcerias com selos e gravadoras. Nesses praticamente treze anos de atividades, cinco full lenght foram lançados, bem como alguns EPs, splits e até compilações.

De volta ao álbum, o mesmo conta com arte de capa feita por Izabela Grabda e totaliza sete faixas – sendo a última um cover para o Fields of the Nephilim -, divididas por quase 52 minutos de música. O leitor percebeu que não encontrará faixas muito curtas aqui, sendo que a menor é justamente “Moonchild”, o cover (diga-se de passagem, de outra banda que também não se constrange com faixas um pouco mais extensas).

“Suffering Made Bliss” é envolta em meio a uma bateria que alterna entre levadas rápidas e outras que se concentram na atmosfera quase mística que a sonoridade nos conduz, assim como melodias profundas nos sugam a reflexão, principalmente  em versos poéticos como “Day after day alone we paint the scars / Layer upon layer and brush is the knife / Day after day alone we paint the scars / Layer upon layer and canvas is the heart”.

O dia em que escrevo estas linhas está nublado, então nada mais adequado para acompanhar essa melancolia do que “With Madman’s Faith”, que aposta em arranjos mais diretos e sombrios – que se me permitem a confissão, não combinam em nada com os agradáveis dias ensolarados. Mesmo para quem ainda é um estranho ao trabalho dos poloneses (eu mesmo!), não é difícil perceber a complexidade e o cuidado de suas composições (musical e lírico), que não se deixam prender aos estereótipos do Black Metal. Criando assim algo nada previsível.

Com um título bastante interessante “Transmutation of Sins” comprovou que o álbum engrenou mesmo a partir da faixa anterior, e faz o ouvinte querer chegar até o fim da obra, da mesma forma que acontece com um bom livro. O clima lúgubre não foi mantido, sendo que optaram pelas doses melodiosas das guitarras – que, como uma vaga lembrança perdida nos pensamentos, podem chegar a remeter algo presente no som que bandas como Alcest praticam. Com “Królestwo Niebieskie” (Reino dos Céus) damos de cara com o idioma polonês – que sinceramente combinou muito bem com o som – ainda que a faixa em si praticamente manteve a pegada da sua antecessora.

“What Christ Has Kept Apart” é uma das mais longas, com 8:14, que deixa claro já no título a mensagem que quer passar, de maneira  sucinta (muito distante das letras de teor imaturo dos primórdios do estilo). Ainda que não se perceba muita diversidade, dizer que a mesma soa cansativa seria mentira. O encerramento da parte autoral ficou por conta de “The Great Seducer”, que passa uma sensação épica por seus quase 10 minutos, com a predominância de passagens mais cadenciadas, por mais que a bateria não deixe as coisas adormecerem. O ponto final é cravado com a já mencionada “Moonchild”, onde apesar da execução muito bem feita, não acrescentou muito ao resultado final em si.

Senti falta de mais riffs e da agressividade do estilo em determinadas partes, ainda que provavelmente a proposta da banda não seja focada nisso. As guitarras tiveram bastante destaque, porém empregando harmonias e solos melodiosos em demasia, o que em certo ponto soa cansativo e “mais do mesmo”. Não há o que reclamar dos vocais, que vez ou outra abrem espaço para sussurros e vozes limpas. A bateria já foi mencionada anteriormente e o instrumentista responsável soube bem o que fazer e como fazer. Em uma sonoridade cheia de camadas, um baixo sem os ajustes certos, não soa com o devido destaque, o que é uma pena.

No mais, um material que se equilibra entre o bom e o razoável, porém, que merece sim uma boa conferida, pois a experiência é válida!

Os textos publicados na página do 80 Minutos representam exclusivamente a opinião do autor


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