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Resenha: Witchcraft Destroys Minds & Reaps Souls (1969)

Álbum de Coven

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Poderia ser melhor, mas decidiram jogar treze minutos no lixo

Autor: Tiago Meneses

08/05/2020

Quando pensamos no Black Sabbath, acho que existe um acordo entre a maioria das pessoas sobre a banda ser reconhecida por dar origem a toda escuridão que floresceria no heavy metal nos anos seguintes, mas antes da banda inglesa, lá do outro lado do oceano, existia a estadunidense Coven, que mergulharia no mundo obscuro do ocultismo um pouco antes. 

Witchcraft Destroys Minds & Reaps Souls, disco de estreia da Coven, e lançado em 1969, apresenta muitos atributos que virariam quase que sinônimos do heavy metal, mesmo sendo na verdade uma banda de rock psicodélico e que poderia ter o seu som associado mais a algo na linha de Jefferson Ariplane do que, por exemplo, do Black Sabbath. O lançamento tem certa ousadia através da suas temática oculta. Há também quem defenda que a banda inventou a saudação do metal, os chifres com os dedos, também exibiu cruzes invertidas e se divertiam com frases como, “salve Satanás”. Existem também discussões sobre o Black Sabbath ter copiado ou não a banda - já que, curiosamente, o nome do baixista era Oz Osbourne e a primeira música do álbum de estreia se chama "Black Sabbath" -, mas coisas assim eu deixo pra quem se importa. 

“Black Sabbath” é a faixa de abertura do disco. Possui uma introdução jazzística bem agradável e que acaba por ceder à margem sonora mais pesada. Ao invés de dar à música uma sensação assustadora e sinistra – que é o que o ouvinte poderia estar esperando – as camadas de vozes soam até meio irritantes. Possui também umas ideias cacofônicas que concluem a música. 

“The White Witch Of Rose Hall” é uma música de atmosfera mais alegre, com as linhas de baixo em destaque e um piano edificante. Apesar de ter uma linha blueseira e quase campestre, as letras falam sobre a misteriosa Anne Palmer, personagem de uma lendária assombração jamaicana, onde segundo lendas, seu espirito assombra o jardim de Rose Hall, Montego Bay. Além de música, essa história também já foi inspiração para série e peça de teatro. 

“Coven In Charing Cross” é onde a banda parece querer impressionar de uma maneira além da música. As letras descrevem um ritual de invocação de demônios – sem contar que eles mencionam o consumo de sangue de bebês – e alguns cantos. Acho que o conceito de fato soa mais forte do que a música em si, mas apesar de uma ideia forte, não é feito de maneira que impressiona. A música é até legal, mas suas pausas para que haja os rituais não parecem funcionar bem. 

“For Unlawful Carnal Knowledge” novamente peca com vocais que não são harmonicamente agradáveis, mas tem uma boa guitarra distorcida e alguns rápidos acordes de órgão que são bem legais. 

“Pact With Lucifer” é mais é um exemplo claro de conceito estampado no título. Tem uma sonoridade que se aproxima muito das desempenhadas por bandas de blues-rock da época – inclusive lembra neste caso um pouco The Doors . Os vocais de Dawson aqui são mais ásperos do que nunca. 

“Choke, Thirst, Die” é uma música agradável. O trabalho de guitarra é muito bom, percorrendo a faixa com vários riffs de guitarra bastante interessantes, porém, infelizmente Dawson sente a necessidade de gritar mais do que o deve e compromete o resultado final. 

“Wicked Woman” é uma faixa bastante curta e de estrutura bem básica, mas ainda assim possui algumas variações interessantes. A guitarra enfim parece ter uma chance mais desinibida de mostrar com grande destaque. 

“Dignitaries Of Hell” é sem dúvida a música mais dominada por bateria que tem no disco. O problema desta banda é que às vezes soa meio incoerente, ou no mínimo estranha, afinal, existe um contraste imenso entre as letras sobre Satanás e o inferno e a sonoridade animada, principalmente em seus acordes mais importantes. Órgão e guitarra também fazem uma combinação deliciosa aqui. Apesar da incoerência mencionada, a música é boa e talvez seja o melhor momentos do disco. 

“Portrait” é a música mais curta, mas também a mais sombria e psicodélica do disco. A guitarra é mais suave do que em faixas anteriores, com isso acaba dando um espaço para que baixo e órgão possa se destacar mais. Se eu falar que as letras são sobre Satanás, vocês acreditam? 

“Satanic Mass” quando ouvi esse disco pela primeira vez, este momento – que parecia ser um épico com mais de treze minutos – me decepcionou bastante, pois na verdade é simplesmente a tentativa da banda de reproduzir uma seita satânica. Começa com o toque de um sino, mas tudo depois disso, tem alguns cânticos, uma pregação, início de um neófito e uma benção. Eles cantam o Pai nosso de trás pra frente. O líder em determinado ponto diz algo como, "você está preparado para servir nosso Senhor Satanás com toda a sua mente, corpo e alma, não permitindo nada que o impeça de promover o trabalho dele?" e "nego a Jesus Cristo, o enganador". A banda retirou a ideia desta faixa de várias fontes como “The Miracle of Theophilus”, onde São Teófilo de Adana, segundo as lendas dos santos tradicionais, fez um pacto com o Diabo e se arrependeu. Grande parte do diálogo em inglês foi literalmente tirado do romance oculto de Dennis Wheatley, “The Sananist”, livro escrito em 1960. A banda também tomou emprestados trechos de Witchcraft, Magic and Alchemy, do francês Grillot de Givry. Se a ideia era passar algo sombrio, sinceramente, erraram feio, pois não passou de uma bobagem que não merece ser ouvida mais do que uma vez. 

O disco tem os seus bons momentos? Claro que sim, e também por vezes apresenta algumas atmosferas bem peculiares, mas em outros momentos é completamente esquecível, tirando completamente a ideia do ouvinte em querer ouvi-lo por inteiro pela segunda vez. Mas novamente tenho que deixar claro que “Satanic Mass” é um dos espaços mais mal aproveitados de um disco que eu já ouvi em toda a minha vida, só sendo recomendada a algum fanático por filmes lado B de terror e que queira encontrar algum equivalente musical. Com os seus mais de treze minutos, onde nada é aproveitado, danifica bastante quando vamos avaliar um disco deste com um todo.

Os textos publicados na página do 80 Minutos representam exclusivamente a opinião do autor


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