Para os que respiram música assim como nós


Resenha: Yessongs (1973)

Álbum de Yes

Acessos: 166


Yessongs é um documento abrangente do Yes em sua era de ouro

Autor: Tiago Meneses

06/05/2020

Yessongs não é exatamente o meu disco ao vivo de rock progressivo preferido, mas certamente é no mínimo um dos três. Mas há algo nesse álbum que nenhum outro conseguiu fazer com tanta maestria, que é descrever perfeitamente o espirito do rock progressivo da primeira metade dos anos 70. O disco em sua versão original tem uma produção péssima e a qualidade de áudio não menos do que medíocre. De certa forma, com os anos e novas versões do disco sendo relançadas com o passar do tempo, esse problema foi cada vez sendo resolvido de forma melhor, ainda que mesmo hoje em dia, não tenha chegado em uma qualidade digna do material musical contido nele. 

Um disco ao vivo diferenciado é aquele que consegue oferecer algo novo e emocionante para discografia de uma banda. Se dentro do estúdio uma banda sugere uma maneira padrão pela qual uma música deve ser executada, é dever do álbum ao vivo conseguir dar ao ouvinte uma nova experiência, algo que nem mesmo acontece exatamente com o Yes, já que suas músicas fogem bastante do padrão, mas o incrível é que ainda assim a banda conseguiu melhorar praticamente tudo criado em estúdio. 

Para a criação de um registro deste porte, existem várias coisas que podem ser atribuídas como cruciais para que possa ser chegado a um resultado final satisfatório, onde uma dessas coisas certamente são as músicas escolhidas. Em Yessongs, as coisas não poderiam ter sido melhores nesta questão, tudo foi retirado basicamente dos discos The Yes Album, Fragile e Close to the Edge, ou seja, de três dos maiores clássicos não apenas da banda, mas de toda a história do gênero. 

Qualquer elogio dado às músicas aqui, não deve surpreender absolutamente ninguém que tenha alguma experiência em algum dos três álbuns citados no parágrafo anterior. “Close to the Edge” é uma obra-prima eterna da história do rock progressivo, sua sonoridade se confunde com a definição do gênero e neste disco está com mais poder do que nunca. "Siberian Khatru" e "Yours Is No Desgrace" são dois momentos mais pesados e enérgicos do disco, executados da maneira sofisticada de sempre e suficiente pra manter a mente do ouvinte envolvida. Se formos falar sobre os momentos mais estilisticamente deliciosos, "Mood for a Day" e "And You And I", por exemplo, conseguem fazer as honras com louvor, demonstrando toda a habilidade de uma banda progressiva como o Yes, em sintonia com sentimento e emoção. 

Há espaço para alguns pequenos desvios do material do Yes, algo que vem em forma de trechos de “The Six Wives of Henry VIII" de Rick Wakeman, que na época havia sido inclusive lançado recentemente. Difícil descrever o que o tecladista faz nesse momento, mas fica bastante claro que ele merece todos os elogios luxuosos que ele tem recebido durante cerca de cinquenta anos. Os tons de piano de cauda são trocados por sintetizadores moog, todos no contexto da pompa e da explosão clássica. "Aleluia" de Handel, tocada no mellotron, por exemplo, é arrepiante. É certo que um cenário ao vivo tende a oferecer mais liberdade para solos e instrumentações estendidas, e Wakeman aproveitou esse espaço maravilhosamente bem. O que dizer então de Steve Howe? Quanta classe, sua guitarra apenas se beneficiou dessas músicas ao vivo, lhe dando oportunidade para criação de floreios adicionais, improvisações e desvios não apenas conscientes, mas coerentes das versões de estúdio. Muitas músicas como as já citadas "Siberian Khatru” e “Close to the Edge” são terrenos mais do que férteis para o que podemos chamar de licença criativa. 

Os fãs de Bill Bruford, podem encontrar em "Perpetual Change", "Long Distance Runaround" e "The Fish" desempenhos como sempre incríveis do baterista, mas Yessongs é muito mais uma  espécie de introdução  à Alan White, que apesar de naquela época ser apenas um novato na banda, se tornaria um dos seus membros mais duradouros. Há por parte do baterista preenchimentos agressivos e que mostra um músico querendo demonstrar que não se encontrava ali por acaso. Apesar de suas linhas sólidas impressionarem em basicamente todas as faixas, Squire brilha de fato em "The Fish", através de um solo extremamente estendido e avassalador, que faz com que entendamos o porquê dele ser um baixista tão influente dentro da música progressiva. Jon Anderson canta como Jon Anderson, ou seja, do seu jeito único, soando em alguns pontos até melhor do que em estúdio. 

Apesar de eu até ter comentado lá no início, o problema na gravação existe e ninguém quer fechar os ouvidos pra isso, mas sinceramente, isso também não afeta em nada apreciação da música encontrada no álbum. Yessongs não é um disco em competição com as versões em estúdio, mas um disco que opera em um comprimento de onda diferente. Ao mesmo tempo em que a banda se permaneceu fiel a cada uma das maravilhas aqui gravadas, também conseguiu se atualizar sem que houvesse uma descaracterização de qualquer uma das faixas, conseguindo alcançar exatamente aquilo que um disco ao vivo perfeito deve alcançar. Yessongs é um documento abrangente do Yes em sua era de ouro.

Os textos publicados na página do 80 Minutos representam exclusivamente a opinião do autor


Compartilhe:

Comente: