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Resenha: Gita (1974)

Álbum de Raul Seixas

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Disco de Ouro

Por: Fábio Arthur

05/05/2020

Sim, o título da resenha é muito pertinente ao realismo vivido por Raul em 1973 até 1974, aliás, com a tal Ditadura Militar ao seu pé, o artista conseguiu trazer à vida uma de suas melhores obras: o disco "Gita".

Gita: Livro hindu, Bhagavad Gita. Daí o termo e inspiração para título do álbum. Raul gravou o disco, foi exilado nos EUA e, entre outras por lá, o cantor tocou na rua as canções tipicamente americanas. Diz ele que também conheceu John Lennon, mas, voltando ao disco, o mesmo vendeu tanto que foi disco de ouro no Brasil. As faixas de teores psicodélicos, rock, jazz e entre outros estilos, foram bem nas rádios e novelas de TV. Assim, Raul obteve permissão para voltar ao país e continuar sua turnê de 1974.

Em partes, Raul conseguiu chamar atenção do pessoal do governo militar. A canção "Sociedade Alternativa" foi de todo um empurrão para o exército chegar junto em Raul e Paulo Coelho. Somente um adendo aqui, eu particularmente não gosto da obra literária de Paulo, mas o fato é que, aonde tem poesia nas letras de Raul e algo mais requintado, a coisa emana de Paulo Coelho, e Raul sempre mantém a via inteligente mais na oratória direta; obviamente seu jogo de palavras às vezes deixa uma incógnita, mas o teor clássico vem de Paulo.

Naquele momento Raul já dava seus pulos rumo ao oculto, e como sempre, a obra de Aleister Crowley povoava suas canções. "Loteria da Babilônia" seria uma delas, com uma gravação em estúdio e simulando ser ao vivo. A produção veio de Marco Mazzola e alguns violões foram gravados por Raul, além de três bateristas em estúdio, inclusive o mestre Mamão. Miguel Cidras, que acompanhou Raul em vários trabalhos, chegou com tudo nesse álbum. 

Outro ponto na criação do disco seria o de que Raul Seixas trazia na arte algo na linha Che Guevara e ainda com a semi acústica vermelha para provocar a Ditadura Militar. 

O que aconteceu com "Gita" é que aqui Raul Seixas não tinha sucumbido ao álcool de forma voraz. Sua cabeça estava no esoterismo, no ocultismo e na astronomia, e suas canções fluíam muito de acordo com sua cultura elevada. 

"Medo da Chuva" traz um casamento acabado, um lamento em um profundo sentido da coisa. "Trem das 7" é uma peça perfeita e que cutuca o governo mas contém passagens de Crowley em suas frases, em uma linda canção e interpretação. "As Aventuras de Raul Seixas na Cidade de Thor" é algo épico e permeado entre forró e rock, Elvis e Luiz Gonzaga na mesma veia. Que letra e que burrice da Ditadura Militar que não entendeu metade do que o cantor expressava ali, na cara dura. Uma das melhor do disco. 
Em "Água Viva" Raul tece seu fino trato de voz e devora as melodias de forma harmoniosa e límpida, emocionando de verdade. "Prelúdio" alfineta e chama a população para uma união para liberdade e bravamente sobre uma repressão vivida. 
"Gita", a clássica faixa e que tem arranjos fundamentais acaba sendo o alicerce mor do álbum e eleva o nível do artista de forma nada singela e sim poderosa. 
E com "S.O.S." Raul continua afirmando que tem gente por aí em outros planetas, mas que eles são melhores que nós, além de tudo, a agonia da repressão é tão absorvida pelo artista que ele deseja a abdução ao ficar aqui na Terra engolindo a mentira toda. 

O maior prazer de se ouvir esse álbum é que ele comporta uma diretriz e traz um elemento de época em um período delicado, mas que culminou com a fantástica cultura e exposição de conteúdos fortemente estabelecidos. Belos argumentos, instrumental impecável e letras que nos fazem pensar.

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