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Resenha: Bigorna (2003)

Álbum de Cartoon

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O primeiro disco conceitual de rock progressivo gravado no Brasil!

Autor: Márcio Chagas

01/05/2020

Tem discos que simplesmente não conseguem ser reconhecidos pelo público mesmo possuindo qualidade indiscutível e acima da média. Este é o caso de “Bigorna” o segundo disco da banda mineira Cartoon.

O grupo foi fundado em minas Gerais nos ano de 1995 e embora tenha realizado turnês de cunho internacional, nunca teve o merecido reconhecimento, mesmo entre os amantes do rock progressivo. A sonoridade da banda abrange uma infinidade de influências, tendo como base medalhões do prog sinfônico como Genesis e Yes, com a adição de elementos experimentais característica de bandas como o king Crimson,  além de pitadas da fase psicodélica dos Beatles, do clube da esquina e dos primeiros trabalhos de Milton Nascimento;

O primeiro trabalho denominado “Martelo”, era cantado em português, com letras inspiradas nos Mutantes e rock brasileiro setentista. Porém, para o segundo álbum, o grupo formado por Khadhu Capanema - vocal, baixo,  violão;  Khykho Garcia - guitarra, violão, baixo e vocal, Bhydhu Capanema - bateria, percussão, flauta e  Boxexa – Piano, órgão sintetizador e vocais, foi bem mais ambicioso, construindo uma ópera rock cantada em inglês e exteriorizando ainda mais sua veia progressiva

São 18 canções com prólogos e introduções que realçam ainda mais a versão do grupo para clássica peça “Rei Arthur e os Cavaleiros das Távola Redonda”, trazendo novas influências, como os trabalhos solo de Rick Wakeman, a teatralidade de alguns trabalhos de Frank Zappa e o clima medieval inerente a história. É perceptível ainda toda a aura cinematográfica que permeia a obra. A banda ainda utilizou instrumentos pouco usuais como Esraj e  cítara e adicionou vários convidados como o pianista Lincoln Meirelles e o celista Robson Fonseca Ferreira, entre outros.

Particularmente, imagino que o grupo tenha sido fortemente pelo filme “Em Busca do Cálice Sagrado”, um clássico da comédia idealizado pela Trupe Britânica Monty Phyton, na concepção de algumas letras e na ambiência criada para contar a história;

Esse clima de trilha sonora aparece logo no inicio do disco com “Prologue”, uma introdução épica com partes de piano e violão no melhor estilo Steve Howe(Yes);

Sendo conceitual, é interessante escutar o álbum por inteiro, mas há faixas que merecem destaque como  “She Smiled”, uma peça calcada no som do cravo, com ares medievais, violões folk e todo o tema cantado em falsete; “Guinevere”; uma balada, onde o Genesis de Peter Gabriel encontra os Beatles de Paul McCartney; “Alberich's Blues” que se inicia falada, repleta de teatralidade, na linha de alguns temas compostos por Zappa, onde os músicos utilizam os instrumentos para participar da história;

“Show Me Where Love Lives”  que tem sua base em cima do piano grandiloquente de Boxexa. É um tema onde Arthur questiona problemas perguntando: “Meu Senhor / Nos olhos um dos outros / Mostre-me onde se escondeu o Mal”; “Knight's Nightmare”, música dinâmica, com vocais a La Beatles e até influencias country no meio da canção. Destaque para o baixista Kadhu, que consegue mudar de entonação vocal para interpretar vários personagens. Aliás, merece aplausos seu contrabaixo sempre pungente e cortante, como um encontro de John Wetton com Chris Squire;

 A canção ” March Of Despair”, embora tenha pouco mais de quatro minutos , é dividida em três partes- A) She's Coming B) Cool Down Emily Whith C) Song Of Despair. Há muitas variações rítmicas, com passagens quase cinematográficas, diálogos, um clima de Jam session e sua letra no sense com menções a duendes e andamento marcial no melhor estilo Jethro Tull;

“The Last Battle” a maior peça do álbum, com quase 10 minutos de duração. Aqui temos a síntese de tudo que foi ouvido por todo o disco: jogos de vocais, passagens sinfônicas com Cello, variações rítmicas, passagens acústicas...um dos temas mais bonitos já compostos pelo grupo;

E ainda vale mencionar  “The Great Gates Of Freedom”, tema que encerra o disco e se inicia com um solo de contrabaixo de Khadu. Não um solo indulgente, com o intuito de demonstrar a técnica do artista, mas melodioso, bem estruturado, que logo é amparado pelos teclados, órgãos e uma inserção de guitarra muito semelhante ao trabalho de Steve Hackett no Genesis. Uma citara da o toque final ao tema com tambores como se encerrasse um filme.

“Bigorna” foi lançado em 2002, com uma revista em quadrinhos encartada contando a história do disco. E considerada a primeira ópera rock gravada no Brasil trazendo uma versão peculiar para o Rei Arthur e os Cavaleiros da Távola Redonda. O álbum foi considerado o disco do ano pelo portal Rock Progressivo Brasil e ainda recebeu excelentes indicações e críticas no Chile Argentina, Suécia, Itália e Estados Unidos. 

A banda lançaria ainda o ótimo “Estribo” em 2008, outro grande trabalho progressivo. Porém, Infelizmente nem todos os elogios e consequentes turnês forma suficientes para manter o grupo neste complexo universo do prog rock, fazendo com que o Cartoon lançasse obras mais diretas como “Unbeatable” e posteriormente entrasse em um hiato, com seus integrantes participando de outros projetos como  o Kernunna, outra banda que merece ser conferida.

Mesmo sendo um disco obscuro, “Bigorna” pode ser considerado um clássico do rock progressivo mundial e em alguns casos, muito superior a discos conceituais lançados por bandas inglesas ou americanas. Um trabalho que merece ser integralmente conhecido.


Os textos publicados na página do 80 Minutos representam exclusivamente a opinião do autor


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