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Resenha: Palepoli (1972)

Álbum de Osanna

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O perfume inebriante de uma das tradições musicais mais antigas do Ocidente

Por: Tiago Meneses

27/04/2020

Palepoli é – ao menos pela grande maioria maioria das pessoas – considerado o maior feito musical atingido pela Osanna. Um disco não muito fácil de definir, até onde eu sei é um disco conceitual sobre Nápoles. O nome do disco também era o nome do assentamento pré-grego (hoje à beira mar e chamado de Santa Lucia) de Nápoles, cidade de onde são os membros da banda. Esse disco não parece ter sido feito apenas pra ser ouvido, mas para ser exibido em cinemas com vários atores e dançarinos. Mas acima de qualquer coisa, musicalmente é um caldeirão, onde diferentes sons e influências são combinadas, juntamente com letras às vezes em italiano e em outros momentos na própria língua napolitana, abordando temas como questões sociais, mitológicas e místicas. 

Entre longos hiatos, a banda continua na ativa – ou já pararam de novo enquanto eu estava escrevendo aqui e eu não sei – com seus rostos pintados que remetem ao personagem de Pucinella, e só pra esclarecer um pouco, Pulcinella trata-se de um personagem clássico que se originou na commedia dell'arte do século XVII e se tornou um personagem comum nas marionetes napolitanas, mas não é essa a expressão artística alvo dessa resenha, mas sim, a sua música, então vamos seguindo com ela. 

 O som desse disco é selvagem e enérgico, misturando um rock pesado ao estilo progressivo britânico e influências napolitanas, proveniente de uma das mais antigas e honradas tradições do mundo. Entre outros nomes a banda faz algo bastante influenciado ao Emerson, Lake & Palmer – ainda que menos explosivo - a música não chega a ser autoindulgente, mas não é feita pra quem quer sutileza. O caos em exibição no álbum é um caos controlado, digamos assim, apesar da natureza um tanto fragmentada das composições. No entanto, esses fragmentos, como as peças de um quebra-cabeça, acabam se juntando para formar uma imagem completa. O disco possuem três faixa, uma com quase dezenove e outra com mais de vinte e um minutos, tendo no meio delas uma pequena faixa – que reprisa o início do álbum - que não chega a dois minutos. Um disco apaixonante, às vezes suave e lírico, já em outras é mais cru, agressivo e apaixonado. Mérito também para a ideia de trazer músicas tradicionais de uma determinada região italiana para o disco. 

“Oro Caldo” é o primeiro épico com os seus quase dezenove minutos. Uma música que pode ser facilmente descrita como uma colcha de retalhos bastante colorida e rica em texturas de humor musical variável. A influência da música folclórica napolitana, assim como ritmos frenéticos da tarantela, é muito evidente ao longo de toda a faixa, principalmente quando no início os membros da banda cantam em dialeto napolitano. O sax e a flauta também são marcas registradas no som da banda, trazendo uma excelente mistura de lirismo e agressão à textura já mencionada anteriormente de sua música. “Oro Caldo” é uma faixa que por muitas vezes penetra com força, mas também tem momentos em que segue por caminhos mais calmos e meditativos. 

“Animale Senza Respiro” é o segundo épico, e com os seus quase vinte e dois minutos, mostra ser uma faixa mais estruturada, ainda que tenha a mesma abordagem eclética encontrada em “Oro Caldo”. É uma abordagem também claramente mais sombria, com alguns estilos mais angulosos e jazzísticos quase que na fronteira de uma música de vanguarda. Novamente saxofone e flauta mostram-se bastante importante para a espinha dorsal sonora da banda, muito bem intercalados com alguns momentos acústicos que os considero até mesmo inesperados. Não é uma música sutil e definitivamente não uma faixa fácil de ouvir, mas para aqueles que se deixam levar, pode se tornar uma experiência cativante. Novamente os vocais são muito bons, inclusive eu ainda digo mais, Lino Vairetti pode ser considerado facilmente um dos grandes vocalistas do rock progressivo 70’s. “Stanza Città” que fica entre os dois épicos é uma vinheta de menos de dois minutos e calcada principalmente no trabalho de flauta e algumas vozes no dialeto napolitano. Um complemente que sequer sei se era necessário, mas também não compromete. 

O perfume inebriante de uma das tradições musicais mais antigas do Ocidente. Este é um álbum bastante emocionante, uma mistura divina de estilos e humores, mas acima de tudo, um disco extremamente original em tudo aquilo que podemos definir como rock progressivo. Já vi definições que o chamam até mesmo de meio louco. Mas qual o problema? Loucura e genialidade não andam de mãos dadas? Então eis um exemplo clássico disso.

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