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Resenha: Tardo Pede In Magiam Versus (1972)

Álbum de Jacula

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Música progressiva, gótica e clássica, unidas em composições muito sombrias

Por: Tiago Meneses

26/04/2020

Antes de querer avaliar algo friamente – algo que nem é a minha pretensão aqui – costumamos tentar saber um pouco mais sobre o disco para que seja entregue ao menos um pequeno texto introdutório. Com isso, não é preciso cavar muita a história da Jacula pra ter a noção do quanto eles eram meio estranhos. Por exemplo, o tecladista Charles Tiring, ao contrário do que acontecia com as demais bandas da época, ele não estava entrando na casa dos vinte ou tinha os seus vinte e poucos anos, ele dizia já ter exatos sessenta e oito na época em que Tardo Pede In Magiam Versus foi lançado, ou seja, em 1972. 

Estranho também é que a banda seguia por um lado bem diferente, eles estavam explorando ocultismo, através de algumas realizações de sessões espíritas. Enquanto que outras bandas de rock progressivo simplesmente usavam teclados como o clássico órgão hammond, Charles Thiring enlouquecia totalmente em órgão de tubo, ainda que ele também usasse o moog ocasional para efeitos sonoros, além de cravos e pianos em outras ocasiões. Devo admitir que há momentos em que chamar isso de rock progressivo é algo bastante difícil, principalmente quando o órgão de tubo é o único instrumento usado. Além de Charles, a banda ainda tem Antonio Bartoccetti na guitarra, baixo e vocal, além de Vittoria Lo Turco no violino, flauta e vocal. No geral tudo se trata de uma ideia experimental que uniu de maneira única a música progressiva, gótica e clássica, através de composições bem elaboradas e sombrias. 

Eu não faço ideia do que significa as inicias, “U.F.D.E.M”, mas qualquer um de nós temos a capacidade de pesquisar um pouco sobre o que fala a sua letra, neste caso é sobre o homem moderno e a sua busca por dinheiro, e com isso tornando o mundo sombrio, no seu final é dito algo como, “que este homem moderno, que nega o Mistério e a Eternidade, morra". “Presentia Domini” significa em latim, "presença de algo que", dando a entender na letra que esse algo é o Senhor. Uma espécie de maldição para o homem moderno, é repetido algumas vezes, “Deus vê você, Deus ouve você, os mortos veem você, os mortos ouvem você". Tudo em um clima sonoro bastante pesado. 

“Jacula Valzer” é uma faixa instrumental, de certa forma soa de uma maneira diferente do que foi apresentado até agora. Flauta, alguns vocais em coro, semelhante a uma trilha sonora composta por Ennio Moricone, quem sabe até houve certa influência, ainda que aqui as ideias sejam colocadas com dissonâncias ao fundo para lembrarmos que estamos diante de um disco que fala sobre pecados e maldades. Em determinados pontos a atmosfera faz lembrarmos algo feito por HP Lovecraft em seu mundo distópico. 

“Long Black Magic Night" começa em uma linha triste através de cravo e flauta, os dizeres em camadas dão um ar sombrio, principalmente pela voz que permanece mais ao fundo, e assim permanece até o seu fim, quando começa seguidamente a última faixa, “In Old Castle” com os seus órgãos que parecem estarem sendo tocados diretamente de uma catedral gótica. Em final de disco assustador. Se bem que, qualquer parte deste disco que não é?

É bastante nítido que o som do Goblin foi influenciado por este álbum, e possivelmente alguns ecos dele também podem ser ouvidos em alguns trabalhos de Keith Emerson, primeiramente através de sua colaboração com Dario Argento, e mais tarde em outros. Os vocais às vezes operísticos, lembram as obras de artistas mais recentes como Universal Totem Orchestra. 

Um disco bastante original para a sua época, às vezes acho que o órgão poderia ser freado algumas vezes, pois aparece demais, e deixar um bom espaço para outros instrumentos não seria uma má ideia. Mas depois penso que a ideia era criar um ambiente sombrio, então entendo o excesso de órgão. Falando em ambiente, esse disco é ótimo, mas tem os seus momentos para ser apreciado, nem sempre a sua música pode fazer bem, podendo ser inclusive a responsável pelo agravamento de alguma perturbação mental de quem o ouve, ou mesmo, causar um mal estar em quem aparentemente estava muito bem.

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