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Resenha: Buon Vecchio Charlie (1990)

Álbum de Buon Vecchio Charlie

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Passagens tranquilas e sinfônicas com momentos mais selvagens e jazzísticos

Autor: Tiago Meneses

26/04/2020

Antes de qualquer coisa, eu começo essa resenha fazendo uma pergunta: Você já escutou ou ao menos ouviu falar em “Na Gruta do Rei da Montanha”? Bom, pergunto isso, pois pra sentir esse álbum dentro da sua maior plenitude, seria interessante conhecer a obra em que ele foi inspirado. De Edvard Grieg, é um fragmento de música incidental, opus 23, composto para a obra de Henrik Ibsen, Peer Gynt Suite. Digo sem medo algum de estar exagerando, mas nenhuma banda conseguiu fazer uma adaptação tão incrível quanto a feita pela Buon Vecchio Charlie.

Já vi em alguns lugares que o pioneirismo do rock progressivo sinfônico dado ao Bando Del Mutuo Soccorso e Premiata Forneria Marconi, deveria na pior das hipóteses ser dividido também com a Buon Vecchio Charlie, acho que inclusive daria uma longa discussão e esse não é o propósito aqui no momento. Mas uma coisa é certa, a banda não segue um padrão conhecido e previsível, não se limita a belas melodias e músicas sinfônicas, eles ousam ser diferentes, sim, isso mesmo, eles consideram usar “Na Gruta do Rei da Montanha” como uma espécie de pedra angular do álbum. É certo que muitos grupos sinfônicos fizeram mais tarde suas versões pra obra, mas todos acrescentaram tantos elementos diferentes que ficava até difícil de catalogar em um gênero. Como já dito mais acima, nenhuma banda fez uma adaptação a nível essa. 

As belas seções líricas se transforma em questão de segundos em algumas incríveis passagens jazzísticas, faixas acústicas e claro, alguns momentos mais rock and roll, as guitarras distorcidas e até um pouco pesadas, andam lado a lado com musicalidades doces, claras e amenas, a flauta pastoral coexiste perfeitamente com o órgão e com o saxofone no maior estilo jazz possível. Quando se fala assim, fica parecendo que o que vai sair é uma verdadeira bagunça, mas acontece que estamos diante de arranjos tão fortes e elaborados com tanto bom gosto, que a mistura acaba fazendo com que nasça algo maravilhoso, por mais que isso possa parecer até mesmo de natureza contraditória.

Como se isso tudo não bastasse, possui letras incríveis cantadas em italiano, obviamente, pela belíssima e forte voz de Richard Benson com Luigi Calabrò fazendo backing vocals. Não é possível enxergar nenhum elemento desnecessário ou fora de lugar, tudo se encaixa perfeitamente como se fosse um quebra cabeça de dez mil peças. Não iria citar nenhuma das faixas, até porque nesse caso, descobrir cada uma delas faz parte da aventura em ouvir o disco, mas diria para que "All'Uomo Che Raccoglie I Cartoni" tivesse um cuidado especial, sentir uma obra prima do rock progressivo e comprovar o quão grandiosa essa banda era capaz de soar. 

Antes de terminar, vale ressaltar algo que não foi dito ainda, que a sonoridade às vezes possui certa influência em Van der Graaf Generator, bastante perceptível inclusive. Bom, é isso, Buon Vecchio Charlie é um disco com alternância entre passagens tranquilas e sinfônicas com momentos mais selvagens e jazzísticos, sempre de forma plena e mostrando o quão variável tudo pode parecer sem que em momento algum soe incoerente.

Os textos publicados na página do 80 Minutos representam exclusivamente a opinião do autor


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