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Resenha: Vento Sul (1972)

Álbum de Marcos Valle

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O lado progressivo de Marcos Valle

Por: Vitor Morais

25/04/2020

"Vento Sul" é o nono álbum de estúdio do cantor e compositor Marcos Valle. O álbum marca uma mudança de sonoridade completa em relação ao álbum anterior, o "Garra", abandonando a sonoridade mais brasileira e acústica e adotando uma estética mais voltada para o rock. Para acompanhar Marcos neste álbum está presente O Terço, banda de rock progressivo que foi decisiva nesta nova sonoridade. 

O álbum começa com "Revolução Orgânica", uma das melhores faixas do disco e de toda a carreira do cantor. A faixa começa com um piano pesadíssimo, seguido por flautas e logo desenvolve para o vocal e o refrão, marcado fortemente por um solo de flauta extremamente criativo, conferindo à música uma sonoridade muito semelhante à banda inglesa Jethro Tull, que misturava o rock progressivo com solos de flauta lisérgicos. A letra da música questiona sobre a relação que o dinheiro tem em nossas vidas, se estamos vivendo para nós mesmos ou vivendo para ele. 

“Malena” inicia-se com um riff de viola e logo evolui para um conjunto extremamente ritmado de contrabaixo e piano, que ditam o vocal. Aqui os backing vocals do Terço são um dos destaques, junto com a flauta e a dupla característica do piano de Marcos com a banda. Já “Pista 02” é um rock marcado pelo refrão cantado pelo Terço, com um ritmo acelerado e uma forte presença da banda.

“Vôo Cego” é uma faixa mais leve e melódica, com Marcos e o Terço alternando versos de uma letra belíssima que evoca um sentimento de nostalgia no ouvinte. A faixa possui um solo de guitarra lindo no meio que parece até que imita o vocal da banda. Esta é uma das faixas em que os dois estão em maior harmonia e sem dúvidas um dos pontos altos do álbum.

“Bôdas de Sangue” é uma faixa instrumental que evidencia o talento de Marcos Valle, que compôs um dos temas instrumentais mais belos da história. Tudo isso é complementado com os lindo trabalhos de guitarra de Sérgio Hinds, guitarrista do Terço. A faixa gira entorno de um mesmo fraseado no piano e evolui com outros instrumentos, criando uma atmosfera linda a ponto de arrepiar a espinha e tocar a alma. Uma curiosidade é que o rapper americano Kanye West fez um sample da mesma em seu single “New God Flow” de 2012.

“Democústico” é uma música com um instrumental extremamente roqueiro e animado, com destaque para a flauta e a percussão, acompanhados pelo vocal praticamente falado de Marcos, que por horas desacelera e  chega a parar, mas apenas para acelerar de novo. A letra consiste em um neologismo, palavras variadas começadas em “demo”, algumas existentes, outras não. 

“DEMOCÚSTICO DEMOGRÁFICO DEMOCRÁTICO DEMOCRÍTICO DEMORADO DEMOIRADO DEMORAIVA DEMOLUTA DEMO DEMÔNIO DEMONSTRADO DEMONADA DEMOTUDO DEMOVIVO DEMOFOME DEMORANDO DEMOIRANDO DEMÔNIO DEMONÍACO DEMOSSONHO DEMOMANSO DEMOLOBO DEMOCANTO DEMOCRÁTICO DEMOCÚSTICO”

Abrindo o lado B, a faixa título “Vento Sul” traz uma atmosfera mais melódica e melancólica, com um lindo trabalho de piano e órgão juntos de um vocal que se assemelha a um coral. Já “Rosto Barbado” é uma das faixas mais pesadas e dramáticas do álbum, que começa com um piano e logo evolui com uma guitarra distorcida e um baixo que conferem um peso muito grande a faixa, que logo chega a um refrão cantado belíssimo. O interessante da faixa é ver como ela evolui de um simples fraseado do piano e logo outros instrumentos vão entrando construindo-a até que desague no refrão. A letra é quase um questionamento ao ouvinte, indagando se o mesmo já tentou largar hábitos e crenças ultrapassados e malsãos e se está pronto para se aceitar e aceitar os outros da forma que são. 

“Você já tentou?
Você já pensou?
Em aceitar, quem não é igual
Ao que você, acha certo ser
É quanto tempo faz
Você não saí, dentro de você”

“Mi Hermoza” é uma faixa que começa com um interessantíssimo violão e percussão, e conforme avança entra uma flauta e guitarra com toques psicodélicos, tudo junto ao vocal em falsete de Marcos. Aos dois minutos e meio a faixa quebra e evolui para um hard rock típico do Terço, logo voltando para o desenvolvimento anterior. 

“Paisagem de Mariana” é uma faixa que beira o rock psicodélico, muito devido ao órgão e o violão que a constroem. Outro destaque é o excelente trabalho de percussão, que cria um clima misterioso e mítico à faixa, dando uma sonoridade muito parecida com as músicas da banda “Perfume Azul do Sol”.

Fechando o álbum temos “Deixa o Mundo e o Sol Entrar” uma faixa bem menos roqueira e mais melancólica, melódica e até metafísica. O violão é a grande estrela da música, que muito bem executado casa perfeitamente como piano de Marcos Valle. A letra é de longe a melhor do álbum e um dos maiores trabalhos de Paulo Sérgio Valle e reflete sobre um amor entre duas pessoas, que apesar de muito grande, é sufocado pelas mesmas e seus motivos pessoais. A faixa se encerra pedindo assim para que se abrissem as portas e janelas do quarto para deixar o mundo e o sol entrar. Esta música apesar de ser composição dos irmãos Valle é mais conhecida pelas belíssimas versões que Elis Regina e Wilson Simonal gravaram, os dois maiores cantores que o Brasil teve em sua história. 

Vento Sul talvez seja o disco mais fora da curva da carreira de Marcos, e sem dúvida alguma um dos seus melhores trabalhos. A presença monstruosa do Terço aqui também é motivo de ovação, complementando a música dos irmãos Valle de uma forma nunca antes vista. Apesar de não ser de um artista de Rock, este álbum figura até hoje nas listas dos melhores álbuns de rock nacional e rock progressivo do Brasil, mostrando toda sua versatilidade e talento. É um álbum obrigatório para quem deseja conhecer o underground do rock nacional e da música brasileira com um todo.

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