Para os que respiram música assim como nós


Resenha: Birds Of Fire (1973)

Álbum de Mahavishnu Orchestra

Acessos: 728


Uma excelência personificada em cinco gênios musicais

Por: Tiago Meneses

24/04/2020

A estreia da Mahavishnu Orchestra foi algo que não pode ser classificado como menos que assustadoramente brilhante. Como conseguir soar melhor? Bom, certamente a banda não estava pensando exatamente nisso, ou seja, pensando em “competir" com ela mesma, digamos assim, mas de qualquer forma eles conseguiram se superar. A banda se moldou através de brincadeiras e mudanças em suas “imperfeições”, além do aumento de tensão, pois agora eles estiveram juntos por cerca de trezentos shows em dois anos antes do lançamento do disco, sendo que antes do lançamento de The Inner Mounting Flame o grupo só esteve junto por algumas semanas. Foi assim que em Janeiro de 1973 foi lançado Birds Of Fire, disco de uma música incendiária pra combinar com a capa e título. 

“Birds of Fire”, faixa título, também é por onde o disco começa. A música é baseada em um trabalho bastante complexo do mestre John McLaughlin, acrescentando um toque oriental singular – aprimorado pelos sons de gongo -, é quase uma espécie de música caoticamente controlada, onde todos os instrumentos parecem exagerar, mas apesar disso, ao invés de ter apenas  explosões instrumentais, também possui alguns suaves momentos jazzísticos que dão um toque de “normalidade” ao som. Essa mistura de sons e estilos faz desta uma faixa incrível, mesmo quando parece ser extremamente complexa pra ser apreciada de maneira despretensiosa. 

“Myles Beyond” atua como uma espécie de alívio depois de tanta sagacidade encontrada na faixa anterior. Logo no início a música já denuncia que a participação mais evidente será das teclas de Jan Hammer. Mas logo a guitarra de McLaughlin e o violino Goodman parecem adicionar um toque mais selvagem à faixa, mesmo que desta vez eles também conseguem evitar as cacofonias descontroladas. O baixo de Rick Laird também faz um excelente trabalho. 

“Celestial Terrestrial Commuters” é uma excelente faixa e que atravessa quase todos os subgêneros do progressivo.  A experimentação da banda nessa faixa bate na fronteira até mesmo da música eletrônica. Existe algum tipo de “duelo” entre os instrumentos que faz com que o ouvinte se mantenha sempre interessado. Mais um momento do disco que é cheio de selvageria e adrenalina. “Sapphire Bullets Of Pure Love” é uma vinheta de apenas vinte e dois segundos, e que eu nunca consegui entender a função dela, curta e eletrônica que chega e vai embora tão rápido que soa como um tanto faz. 

“Thousand Island Park” é aquele tipo de música em que apesar de ser de uma banda que em sua maioria nos proporciona o fusion, também é o exemplo do porque eu amo tanto a música progressiva. O dueto entre McLaughlin e Hammer, onde McLaughlin abraça com força tudo o que ama, misturando um estilo flamenco puro com uma beleza extrema das teclas clássicas de Hammer. Pode até não parecer inicialmente, mas essa música é de uma riqueza impressionante. 

“Hope” é uma faixa curta e infelizmente de certa forma decepcionante, começa com uma sonoridade que vai crescendo como se estivesse anunciando algo grandioso, mas o problema fica exatamente nisso, ela não está introduzindo nada e não chega a lugar algum, simplesmente segue sem rumo. Não vou deixar de destacar as habilidades de Hammer, mas obviamente que isso não é o suficiente pra tirar essa faixa do buraco. 

“One Word” é a faixa mais longa do disco com quase dez minutos. Trata-se de um exemplar raríssimo do que podemos chamar de um progressivo fusion misturado com algum tipo de space rock e uma espécie de jam. Ficou meio confuso isso? Mas é fácil de entender quando ouvir a faixa, todos os membros têm seus momentos para provar as suas habilidades, porém, os fazem sem perder a coerência da faixa. Todos são incríveis, mas destaque para Cobham que mostra uma capacidade incrível de domínio sobre a bateria, de tirar o fôlego, e Rick Laird em linhas de baixo sagazes. 

“Sanctuary” começa de maneira sombria e assustadora, com Hammer criando algumas ótimas atmosferas – algo incomum para o momento – quando incrivelmente a música se transforme em algo que pode ser chamado de jazz sinfônico. A melodia assume o papel central, e ao invés da agressividade de faixas anteriores, tudo soa de maneira bastante calma e bonita. 

“Open Country Joy”  é mais uma faixa curta e que novamente explora o lado mais melódico da banda. Pela primeira vez no disco podemos perceber Jerry Goodman soando mais como um violinista tradicional de texturas finas e não agressivo e experimental. Mas então que a música abre a jaula e as feras se soltam, com McLaughlin desafiando Goodman em mais um dos seus excelentes duelos, mas claro que nesse duelo não existe vencedor a não ser o ouvinte. No final pra provar sua versatilidade, Goodman ainda acrescenta uma linha suaves de influência country. 

“Resolution” é a faixa escolhida para fechar o disco. Começa com um som marcial que segue em "crescente", mas novamente nunca atinge o seu pico e clímax. Sinceramente, toda vez que ouço essa faixa eu fico esperando algo acontecer, algum desenvolvimento de ideia. Com o mesmo erro de “Hope”, frustrante é a palavra para descrevê-la. 

Seria justo não classificar esse disco diferente de um clássico espetacular por conta de duas músicas que parecem perdidas? Eu diria que sim, mas acontece que as demais faixas soam de forma tão poderosas que é impossível ver um disco como esse com uma nota inferior o que de maior pode ser oferecido. Uma excelência personificada em cinco gênios musicais.

As publicações de textos e vídeos no site do 80 Minutos representam exclusivamente a opinião do respectivo autor


Compartilhar

Comentar via Facebook

IMPORTANTE: Comentários agressivos serão removidos. Comente, opine, concorde e/ou discorde educadamente.
Lembre-se que o site do 80 Minutos é um espaço gratuito e aberto para que o autor possa dar a sua opinião. E você tem total liberdade para fazer o mesmo, desde que seja de maneira respeitosa.