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Resenha: Present (2005)

Álbum de Van Der Graaf Generator

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Honesta com o passado e oferecendo uma nova e brilhante direção musical

Autor: Tiago Meneses

22/04/2020

No ano de 2005, eu assim como muitas pessoas que também gostava da banda, jamais imaginaria que ainda iria existir um novo disco da Van der Graaf Generator, afinal, por qual motivo eles iriam querer mexer em uma discografia inerte a vinte e sete anos? Poderia ser um tiro no pé e a banda poderia acabar colocando uma mancha negra em uma das discografias mais consistentes da história do rock progressivo. Essa minha preocupação só durou até eu ouvir os primeiros segundos de Present e perceber que a Van der Graaf Generator segue a filosofia de que quem é rei nunca perde a majestade, lançando não apenas um, mas outros bons discos como Trisector em 2008 e o A Grounding In Numbers em 2011, mas esses dois são assuntos para outras resenhas. 

Present é um conjunto de dois CDs, mas eu sinceramente não costumo chama-lo de disco duplo, pois enquanto o disco um é de fato uma realização prazerosa de se ouvir, o disco dois é somente uma sessão de jamming dos membros da banda que eu particularmente acho que deveria ficar apenas no estúdio entre eles, pois não é nenhum pouco atrativo. Tudo parece meio desestruturado e sem direção alguma. Só ouvi esse disco umas três ou quatro vezes e pronto, não consegui assimilar essas “série de improvisações” como é chamado no encarte do próprio CD. Mas vamos ao que interessa que é o disco um. 

“Every Bloody Emperor” tem um início com uma instrumentação ambiente, flauta e alguns leves toques de pratos, então que a voz de Hammill aparece com o poder e sentimento de sempre, já fazendo o ouvinte lembrar-se dos velhos tempos. Só com essa abertura, rapidamente a banda já demonstra não ter perdido o feeling dos anos setenta, mas apenas se adaptado a novas tecnologias de gravação. Hammill, como sempre, consegue trazer a música pra uma variação de pontos altos e baixos. Órgão, flauta e uma bateria macia trabalhando principalmente com pratos e sons de caixa, tudo isso é maravilhoso. Vale mencionar também o interlúdio em que órgão e saxofone tocam suas partes lindamente. Que começo incrível de disco. 

“Boleas Panic” é uma excelente faixa instrumental que apresenta ótimas improvisações no trabalho de saxofone de David Jackson, sendo acompanhado por uma música hipnotizante que flutua e se desenvolve maravilhosamente bem. A bateria embora pareça simples, tem ótimas batidas e ajudam a articular a faixa. Pode-se notar algo que é um pouco raro na banda que é um trabalho distorcido de guitarra. A princípio percebemos que se trata de uma música orientada para uma melodia simples, mas as improvisações de saxofone e sons crescentes da seção rítmica a transformaram em uma música rica em arranjos. 

“Nutter Alert” começa com um toque de teclado que é rapidamente seguido por uma ótima linha de saxofone e uma voz enérgica em notas altas. O trabalho de órgão de Banton parece estar sempre crescendo ao fundo, com preenchimentos riquíssimos de saxofone durante os versos cantados. Citando de novo o órgão, ele é simples, mas ao mesmo tempo é muito bom, já o trabalho de saxofone de Jackson não é nada menos do que sublime. A seção rítmica parece mudar bastante desde o início da faixa, mas sempre de maneira bem orientada. Outro excelente momento do disco. 

“Abandon Ship!” mostra a banda em uma exploração de música de vanguarda – que eles fizeram muito no passado – com um começo de guitarra distorcida, seguida por bateria, órgão e saxofone. Até mesmo quando parece desarticulada a música demonstra uma ótima harmonia. A parte do interlúdio é excelente. Hammill como gosta de fazer muitas vezes, está cantando de força visceral. 

“In Babelsberg” a banda continua em uma exploração de guitarra distorcida – a música usou isso em uma quantidade maior do que qualquer um dos seus discos anteriores - com acontece na faixa anterior. Novamente a banda opta em tocar uma composição não estruturada, mas novamente soando muito bem. Cada instrumento demonstra uma improvisação intensa, principalmente o saxofone, mas até mesmo a voz de Hammill mostra-se improvisada aqui. 

“On the Beach” é a música que finalize o disco. Uma faixa bastante suave que apresenta um trabalho vocal dominante acompanhado de um saxofone improvisado, tendo o trabalho de órgão com uma bateria suave a seção rítmica principal. Assim como acontece com a faixa de abertura, aqui a música é liderada pelo estilo de cantar de Hammill e um saxofone durante a parte do interlúdio. Em termos de estilo, essa música flui maravilhosamente e entrega ao ouvinte um final de disco excelente. 

No geral, o disco contem uma ótima música e que representa a banda dentro do antigo estilo clássico da Van der Graaf Generator através de composições brilhantes. Van Der Graaf Generator é um excelente exemplo de como uma banda pode ser honesta com seu passado e ao mesmo tempo oferecer uma nova direção em sua música. Um disco com toda a excelência e padrão Van der Graaf Generator de qualidade.

Os textos publicados na página do 80 Minutos representam exclusivamente a opinião do autor


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