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Resenha: Marcos Valle (1970)

Álbum de Marcos Valle

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O inicio de uma nova fase

Por: Vitor Morais

20/04/2020

“Marcos Valle” de 1970 é o sétimo álbum de estúdio do Marcos Valle. É popularmente conhecido como o “disco da cama” devido à capa em que Marcos aparece deitado em uma cama de solteiro no aguardo de sua companheira. Como ele mesmo explica, a ideia é que a capa refletisse uma sensualidade que estaria presente no álbum. Na contracapa vemos a cena depois da diversão, com a cama revirada, roupas abarrotadas pelo chão, bitucas de cigarro e copos de whisky vazios. 

O álbum é o último a conter os resquícios da bossa nova de Marcos, que vinha apontando para uma nova sonoridade desde seu álbum anterior, o “Mustang Cor de Sangue”, e portanto apresenta uma sonoridade mais voltada para o pop, soft rock, soul e até baião. Acompanhando Marcos neste disco está o Som Imaginário, banda criada para acompanhar Milton Nascimento como banda de apoio e que traz ao disco pitadas de rock progressivo. 

O álbum inicia com “Quarentão Simpático”, com um piano ditando a melodia e um violão e contrabaixo bem ritmados, sendo que o destaque vai para o lindo solo de órgão, que traz um som muito aveludado à canção. A música participou da novela “Assim na Terra Como no Céu” com um gravação do grupo Umas e Outras. Marcos então achou conveniente gravar a música para um álbum próprio em um arranjo diferente.

“Ele e Ela” traz um pouco da sonoridade anterior de Marcos em sua introdução e logo desenvolve para um canto dele com sua irmã, desenvolvendo uma atmosfera muito calma e romântica. Em 2009 o rapper americano Jay-Z usou um sample da introdução desta faixa em sua música “Thank You”, o que foi surpreendente pois ela está longe de ser uma música famosa na carreira de Marcos.

“Dez Leis” traz uma letra de idioma misto (inglês e português) e faz o ouvinte se questionar o que é uma boa lei ou o que a torna válida, dando uma certa carga de protesto à música. Apresenta ainda fortes influências da soul music e ao blues, que seriam melhor exploradas em seu álbum seguinte.

“Pigmalião” era uma música orginalmente instrumental que foi tema da novela de mesmo nome, mas Marcos gostaria de grava-la para o álbum, então seu irmão Paulo Sérgio escreveu uma letra que contava a história original da lenda grega do pigmalião, um escultor que se apaixonava por uma estátua que esculpira, mas misturando a história com críticas que passaram despercebidas pela censura. A música possui uma versão de ótima qualidade da cantora Eva em seu disco “Evinha” de 1970.

“Que Eu Canse e Descanse” é uma balada extremamente calma e melódica, que lembra muito o estilo da bossa nova de Marcos. A faixa tem um piano tímido e delicado mas que emana beleza, aliado a um lindo arranjo de cordas. A letra é extremamente bela e fala sobre uma espécie de amor livre. 

“Esperando o Messias” abre o lado B com um parceria com os Golden Boys, banda que também gravava pela Odeon, com uma música que mistura muitos gêneros musicais. A começar pela introdução de flauta que lembra muito o baião e desenvolve para uma jazz nos versos e retorna para a flauta no refrão. 

“Freio Aerodinâmico” é uma faixa fortemente inspirada na bossa nova mas com uma roupagem mais moderna e novamente um dueto cantado entre Marcos e sua irmã. A música é uma releitura da música “Azymuth” do álbum anterior de Marcos, “Mustang Cor De Sangue”. A faixa traz uma versão bem dançante e o estilo do piano é inspirado no tocar de João Gilberto, convertendo os ritmos do samba em um único instrumento.

“Os Grilos” é uma das músicas mais famosas de Marcos Valle, e neste álbum ganhou uma nova roupagem totalmente diferente. A música já existia em versão de língua inglesa, intitulada “Crickets Sing For Ana Maria” fazendo muito sucesso no exterior em sua versão de bossa.  Para esta versão, o Som Imaginário transformou a música em um rock e Paulo Sérgio compôs uma nova letra, desta vez em português e com uma crítica à alta sociedade da época com seus maiores símbolos: o Rio de Janeiro, um automóvel, cabelereiros e jantares em iates. O destaque da faixa vai para a guitarra distorcida, que confere agressividade à faixa, tornando-a completamente diferente de suas versões anteriores.

“Suíte Imaginária” é uma suíte completamente instrumental de quase nove minutos dividida em quatro partes e que destoa completamente do disco. A ideia de gravar uma suíte veio após Marcos descobrir que os estúdios da Odeon tinham um cravo em um canto, e ele sentiu necessidade de usá-lo. 
“Canção” é a primeira parte da suíte e apresenta um lindo piano tocado no ritmo dos ponteiros de um relógio. Logo entra na faixa um backing vocal feminino quase angelical, trazendo consigo a banda inteira desenvolvendo a canção em cima do seu canto. A faixa se encerra com um dedilhado desainado e volta para o tique-taque do relógio. 
Subitamente começa “Corrente”, a segunda parte da suíte, começando com uma banda de sopro tocando uma peça interessantíssima e acelerada e logo desemboca na terceira parte.
“Toada” inicia com um lindo piano executado por Marcos e logo a banda entra com o cravo e um backing vocal masculino, conferindo uma atmosfera medieval para a música, que logo evolui para uma fritação de órgão que lembra muito o uso deste instrumento no rock progressivo. 
“Dança” é a parte final da suíte, e se inicia com um solo de cravo juntamente com uma flauta de base. A música se desenvolve para um lindo piano que imita o som de uma harpa, um órgão de base acompanhado por outro piano e um violão, que juntos desenvolvem uma linda melodia. A música volta apara a dupla cravo e flauta da introdução e se encerra, encerrando junto dela o álbum.

O “disco da cama” de Marcos Valle é um álbum importantíssimo porque aponta para novos rumos de sua carreira, deixando de vez o seu estilo bossa nova apara trás e explorando outros gêneros musicais. Pode não ser o melhor, mas inicia uma primorosa fase de álbuns brilhantes, vide seu sucessor, “Garra”.

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