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Resenha: Underwater Sunlight (1986)

Álbum de Tangerine Dream

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Underwater Sunlight tem a primeira metade muito boa e a segunda metade mediana

Autor: Tiago Meneses

16/04/2020

Em 1986 a Tangerine Dream já havia gravado dezenas de discos na sua assustadoramente vasta discografia. Mas há sempre aqueles pontos em que de certa forma acontece algo especial, onde Underwater Sunlight traz isso. Este é o primeiro álbum em que Paul Haslinger está envolvido com a banda, se tornando um membro regular pelos próximos cinco anos, o que em se tratando de Tangerine Dream são quinze discos. Paul é um músico que havia sido treinado classicamente na Academia de Música de Viena e na Universidade de Viena. A Tangerine Dream foi a sua primeira grande oportunidade e já neste seu álbum de estreia com a banda, nota-se como a sua influência seria integrada ao grupo. Como o nome sugere, Underwater Sunlight é um disco com músicas influenciadas pela vida marinha. Não vou dizer que conheço plenamente a discografia da banda, pois são mais de cem discos, mas pelo que sempre percebi a banda busca fazer seus álbuns com base em um determinado tópico, criando assim a música em torno disso. Paul também trouxe uma abordagem de composição mais padronizada em comparação com o que foi usado anteriormente pela banda, pelo menos em relação ao que conheço. 

A primeira parte do CD ou primeiro lado do vinil é dedicada a uma suíte dividida em duas partes chamada, “Song Of The Whale”. A primeira das duas partes se chama “From Dawn...”, após uma introdução muito atmosférica em um estilo instrumental livre, a faixa capta uma melodia em um som no teclado que é contrastado por um efeito de som vocal arejado produzido eletronicamente, criando uma contra melodia. Em torno dos três minutos de música um solo de guitarra assume o controle por um curto período de tempo, as coisas então ficam eletrônicas por um tempo maior. Um alto efeito de colisão sinaliza o início de um intenso solo de guitarra com o padrão de arpejo continuando em segundo plano. A guitarra permanece na frente até a marca dos sete minutos, onde as coisas se acalmam até o arpejo voltar a ser construído, encerrando a primeira parte com um forte som orquestral. A segunda parte da suíte se chama “The Dusk”. Aqui podemos começar a ouvir de fato a influência do novato na banda. Começa com Paul fazendo um belo solo de piano por cerca de dois minutos até que os sintetizadores atmosféricos entram na faixa e começam a assumir o controle. A música ganha uma atmosfera pacífica e, eventualmente, um efeito de harpa se desvanece. Novamente a banda usa de efeitos vocais sintetizados. Um ritmo na música é estabelecido e um sintetizador pega a melodia e se baseia nela. O ouvinte passa a entrar em um som mais estruturado à medida que também a música vai passando por um som mais acessível, quase até mesmo comercial. Por volta dos seis minutos outra melodia é movida por guitarra, mas em pouco tempo tudo muda rapidamente. Em alguns momentos a música ameaça ir além do reino da new age, mas nunca o faz. 

“Dolphin Dance” inicia a segunda metade do disco que consiste em música mais curtas. Começa acelerada, produzida eletronicamente e com uma melodia de sintetizador feito com um efeito de cravo. “Dolphin Dance” é uma música boa, possui um bom solo de guitarra e em seguida tem um retorno para uma segunda melodia com o sintetizador e guitarras se revezando. A batida é bastante influenciada pelo que era feito nos anos 80. 

“Ride On The Ray” tem um começo no teclado tipicamente 80’s em um ritmo intermediário. Então a música é conduzida por uma melodia no que parece ser um clavicórdio. Mais uma vez, um solo de guitarra começa, caindo no mesmo padrão da faixa anterior. Mas aqui os efeitos sonoros são mais ricos, digamos assim, mas a sonoridade da época é predominante. 

“Scuba Scuba” apresenta um som um pouco mais sombrio, mas mesmo assim segue o padrão já estabelecido pelas faixas anteriores e que também fazem parte da segunda metade do disco. Não tem muito a ser dito, talvez apenas que se trata de uma música menos melódica. 

“Underwater Twilight” finalmente chega pra finalizar o disco, de uma maneira bem melhor do que a que estava se caminhando inclusive, pois após a primeira metade, ainda que as músicas não estivessem ruins, também não estavam à altura da suíte inicial e deixaram o disco mais morno. Possui alguns efeitos legais que fazem parecer um sintetizador suave com alguns outros efeitos eletrônicos vocalizados. Essa faixa tem um clima muito mais ambiente e menos new age. Um ritmo eletrônico se forma, mas muito mais interessante do que das faixas anteriores. Os teclados tocam uma melodia com base em um padrão de acordes. Há ainda um pequeno espaço para algo mais experimental. Após algumas faixas muito quadradas, as coisas melhoraram no fim do disco, antes tarde do que nunca. 

A influência de Paul é bastante visível nesse disco e ditaria o caminho que a banda seguiria pelos próximos anos. O som mais acessível dos anos 80 se tornaria mais proeminente à medida que a banda tentasse expandir sua base de fãs durante o período da popularidade da new age e new wave.  O disco não é ruim, longe disso, até considero um bom álbum, mas parece meio datado e lhe falta uma veia mais experimental e que a banda sabe fazer tão bem. Existem outros álbuns melhores da banda em seu longo catálogo, mas Underwater Sunlight tem seus valores, sendo um disco de primeira metade muito boa e segunda metade mediana, ficando no fim das contas como um bom álbum.

Os textos publicados na página do 80 Minutos representam exclusivamente a opinião do autor


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