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Resenha: Marcos Valle (1974)

Álbum de Marcos Valle

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A tristeza e a melancolia de quem se cansou de ser calado

Autor: Vitor Morais

11/04/2020

“Marcos Valle” é o décimo primeiro álbum de estúdio do cantor e compositor Marcos Valle, lançado em 1974. O álbum é o último lançado por Marcos antes de se mudar para os Estados Unidos. A sonoridade do disco marcada por uma leve tristeza ou melancolia, advindas das barreiras que a censura impunha em seu trabalho. Todas as músicas são de Marcos e Paulo Sérgio Valle, seu irmão. Os arranjos do álbum são de Tavito, que na época fazia parte do Som Imaginário, banda de Rock Progressivo criada para acompanhar Milton Nascimento e que já havia tocado com Marcos em seu disco de 1970, também intitulado “Marcos Valle”, ou “o disco da cama”.

O Disco começa com “No Rumo do Sol”, música com um feeling absurdo, com ótimos trabalhos de piano e uma fórmula pop setentista infalível. Uma possível interpretação da letra seria a mudança que estava acontecendo na vida de Marcos, tanto na sua música como em sua vida, mostrando um sentimento de ambição e liberdade para poder ir à qualquer lugar. Seguindo temos “Meu Herói”, com outra letra simples e belíssima, piano e órgão em sintonia total e um backing-vocal que beira a perfeição, Marcos nos traz uma faixa que evoca o amor e a empatia por meio da construção de um herói próprio. Um herói que chora, morre de medo e fracassa mas só dá beijos.
“Meu herói já chorou, já morreu de medo. Meu herói é fraco, ele é um fracasso”
“Só Se Morre Uma Vez” é uma faixa extremamente melancólica e cantada em coro, com um arranjo belíssimo. Tanto a sonoridade quanto a letra contribuem para que seja uma música muito densa. Ela reflete sobre a morte e a efemeridade da vida. Logo após temos “Casamento, Filhos e Convenções”, a música mais animada do álbum e muito influenciada pela soul music. Possui ótimos trabalhos de pianos em conjunto com uma guitarra e metais muito swingados. A letra é simples e fala sobre deixar as convenções da época de lado e assumir um grande amor. 
“Remédio pro Coração” segue o álbum com uma introdução e refrão de sintetizadores muito interessante, abrindo para um blues emotivo e muito delicado que discorre sobre a solidão. Seguindo a mesma linha de sintetizadores temos “Brazil X México”, um instrumental curto que possui ótimos trabalhos de violão, os já mencionados sintetizadores e o piano clássico de Marcos Valle, criando assim uma mistura entre a música brasileira e mexicana. A música foi regravada no álbum de 2006 de Marcos Valle “Jet Samba”.
“Tango” abre o lado B com influências do tango com arranjos muito criativos e um ótimo trabalho de bateria. Talvez seja a música mais acelerada do álbum e mostra o talento de Marcos em fundir outros gêneros musicais em sua música, criando algo único. “Nossa Vida Começa na Gente” segue com um violão e piano em sincronia absoluta e branda pela liberdade do sujeito em tocar sua vida como bem entender. Apesar de também ser uma música mais acelerada, ela ainda possui a melancolia presente em todo o álbum.
“Novelo de Lã” trata da questão do tempo e como o mesmo passa rápido, construindo uma metáfora com um novelo de lã rodando silencioso. A música apresenta uma melodia bem lenta e calma, seria quase relaxante se a letra não criasse a problemática da velocidade do tempo, causando um certo inquietamento no ouvinte mais atento. 
“O tempo tem passado tão depressa que dá para pensar que o tempo tem agora menos tempo pra passar”.
“Cobaia” é última cantada do álbum e reflete o descontentamento com a situação do país na época e fala da importância em pensar e falar livremente, assim como cutuca quem achava que tudo ia bem. 
“Eu não quero ser cobaia enquanto o mundo ensaia como se morrer, sou ainda um ser humano e vou falar o que eu pensar”
Encerrando o disco e toda uma fase da carreira de Marcos temos “Charlie Bravo”, um instrumental dramático, com arranjos tristes e um piano pontual, sinalizando perfeitamente o espírito geral de tristeza, densidade e melancolia do álbum. A música, além de extremamente linda, é a despedida perfeita de Marcos, marcando o fim de uma extensa fase em sua carreira. 

“Marcos Valle” é um álbum extremamente belo e erudito, e é incompreensível o porquê de ser tão pouco falado ou ouvido, sendo uma das pérolas mais brilhantes da carreira de Marcos Valle. A tristeza e a melancolia do disco são muito marcados também pela capa, que se encaixou perfeitamente no contexto. Poucos anos depois Marcos Valle voltaria de vez ao Brasil trazendo uma mudança radical em sua sonoridade, muito influenciado pela música disco americana e fazendo também muito sucesso com hits super oitentistas, que serão alvo de uma próxima resenha.

Os textos publicados na página do 80 Minutos representam exclusivamente a opinião do autor


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