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Resenha: Somewhere But Yesterday (1994)

Álbum de Citizen Cain

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Muito além de um "clone" do Genesis

Autor: Tiago Meneses

09/04/2020

Citizen Cain é uma das bandas que mais vi sofrer até hoje com comentários sobre o fato de seu som ser um clone do Genesis, eu mesmo cheguei evitar ouvi-la por muitos anos por conta de acreditar nessa afirmação, afinal, mesmo eu sendo um fã incondicional da banda, uma imitação total até da melhor banda que existe, sem um pouco de criatividade não tem como ficar bom. 

Uma banda pode tocar na mesma linha de outras décadas e isso inclusive é algo que eu acho ótimo, ela pode ser influenciada por uma determinada banda e ainda lançar grandes álbuns, pois no fim das contas ela adiciona elementos próprios. Agora simplesmente copiar é algo que vai além da compreensão de qualquer pessoa que queira ouvir algo mais singular. 

Então que depois de muito tempo eu lembro que decidi não dar importância para os comentários e fui conhecer de fato a banda. Tive uma grande surpresa, tudo bem que realmente a banda na abordagem vocal há uma semelhança com Peter Gabriel, ou pra ser mais honesto, há uma mistura de Gabriel, Collins, Fish e Nick Barrett. Mas no geral não encontro esse papel carbono que muita gente diz. 

A abordagem de teclado é absolutamente diferente da característica de Tony Banks e o uso da guitarra é muito mais agressivo e menos delicado do que o de Steve Hackett. Com isso eu digo que os que acreditam que essa banda é um clone do Genesis, certamente devem ter uma perspectiva de som bem diferente da minha. 

“Jonny Had Another Face” começa com uma forte introdução com algumas reminiscências em Marillion, até os teclados estão mais próximos dos feitos pelo Mark Kelly do que dos de Tony Banks, mas o estilo é mais rico e muito mais versátil. A banda combina de uma maneira muito feita vários humores e texturas de diferentes épocas e subgêneros. Uma música bastante frenética, com incríveis mudanças de andamentos e sonoridade muito bem elaborada. Um excelente começo de disco.

“Junk And Donut” marca uma mudança radical em relação a faixa anterior. Começa de maneira bastante suave e com uma narrativa, algo na veia de Wind & Wuthering, uma flauta suaviza a forte introdução agressiva e leva a algo totalmente diferente, algo sinfônico com transformações profundas e dramáticas na estrutura.  Mais uma música excelente. 

“To Dance The Enamel-Faced Queen” é uma daquelas músicas que tira o fôlego do ouvinte desde as suas primeiras notas. Sem nenhum aviso ela já nos golpeia com uma jorrada de órgão até que os vocais apareçam pela primeira vez. Nesse momento, tudo pode ser esperado, cada segundo da música é muito bem coberto com os instrumentos, não dando tempo para que haja um descanso em hipótese alguma, algo que pode cansar um ouvinte casual, mas certamente é maravilhoso para qualquer fã de rock progressivo. 

“Somewhere But Yesterday” é um épico com quase vinte e sei minutos com várias mudanças de andamento e mostra quanto bem direcionados eles são. O som vai desde suave quase lírico a agressivo quase brutal, mas sempre fazendo mudanças perfeitas e trabalhando em arranjos requintados. Muitas vezes a banda pode até mesmo desconcertar o ouvinte, pois não há como imaginar o que está por vir, mas fazem isso sempre sem deixar que a música perca a coerência. Uma verdadeira obra de arte. 

“Strange Barbarians” é a música que encerra o disco. Novamente há umas diferentes abordagens e sons, tocando até um tipo de “jazz” por alguns momentos, mas a estrela da música fica por conta do órgão, que nos leva pelos anos 70 sem a necessidade de copiar nenhuma banda ou estilo particular. Simplesmente capturam uma atmosfera própria criando algo só deles. 

Esse disco pode não ser daqueles que capturam logo na primeira vez quem o escuta, mas ele cresce no ouvinte a cada audição. Muito além de um clone do Genesis.

Os textos publicados na página do 80 Minutos representam exclusivamente a opinião do autor


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