Para os que respiram música assim como nós


Resenha: Garra (1971)

Álbum de Marcos Valle

Acessos: 493


Toda a garra e o talento de Marcos Valle

Por: Vitor Morais

07/04/2020

“Garra” é oitavo álbum de estúdio do cantor e compositor Marcos Valle. Com as letras escritas em conjunto com seu irmão, Paulo Sérgio Valle, este é um do melhores álbuns de sua carreira e definitivamente um álbum obrigatório para qualquer apreciador da música nacional.

O álbum abre com “Jesus Meu Rei”, uma faixa com altíssima carga política. O título original era “Pobre do Rei” e a letra criticava o presidente da época. Crítica esta que fica clara nos versos “jesus, meu rei, fazendo lei, passa seu tempo real” e “Jesus, meu rei, lê os jornais, pedem que faça e ele faz”. Como era de se esperar a censura barrou a música e para que esta fosse publicada, a letra foi alterada para conter um caráter religioso. O destaque da música é o lindo cravo que toca juntamente com o piano e os corais que remetem à uma missa. 

A próxima música é “Com Mais de 30” e é possivelmente a mais popular deste disco. Com um violão super swingado, Marcos e Paulo tentam passar a mensagem de que não se deve achar que sabe tudo da vida ao atingir os 30 anos, pois ainda há muito para aprender. Outro destaque desta faixa é o ótimo trabalho de baixo, que acompanha o violão dando um ritmo acelerado e cativante à música.

A faixa título do álbum, “Garra”, traz uma crítica à ganância e a sede de dinheiro, em que a pessoa daria mais importância ao dinheiro do que as pessoas ao seu redor ou até a sua própria saúde. Apesar da mensagem forte a música traz um instrumental animado e ritmado, com destaque para o excelente trabalho de órgão, que alterna entre um refrão melódico e de certa forma dramático para versos ritmados e cativantes.

“Black is Beautiful”, um blues, é a próxima música do álbum e realça a luta negra nos EUA. A música foi interpretada por Elis Regina em um show no Maracanãzinho, o que culminou na prisão dela e do cantor Tony Tornado na mesma noite. O destaque da música é o lindo vocal de Marizinha (Trio Esperança).

“Ao Amigo Tom” é talvez a música mais simplória do disco e fala do retorno de Tom Jobim dos Estados Unidos. O estilo musical remete muito à bossa nova que Marcos costumava fazer nos anos 60. Encerrando o lado A temos “Paz e Futebol”, faixa mais alegre do disco que exalta o espírito brasileiro com muito ritmo e ótimos trabalhos de metais.

“Que Bandeira” abre o lado B com uma influência soul fortíssima, além de um refrão cativante e um jogo de palavras de primeira qualidade. A música ganhou uma versão de Evinha (Trio Esperança) no álbum “Cartão Postal” de 1971, que de tão boa chega no nível da original.

“Wanda Vidal” é uma música feita para a personagem de mesmo nome da novela “O Homem que Deve Morrer”. O violão extremamente ritmado da música faz com que ela seja uma das preferidas da carreira de Marcos no exterior. A próxima música, “Minha Voz Virá do Sol da América do Sul”, é a única instrumental do disco, e exalta um piano belíssimo, sendo uma das músicas mais lindas da carreira de Marcos.

Seguindo, a penúltima faixa é “26 Anos de Vida Normal”, faixa gravada por Erasmo Carlos no seu disco “Carlos, Erasmo...”, sugere uma abordagem mais puxada para o rock, assim como a música que encerra o disco, “O Cafona”, música que serviu como abertura da novela de mesmo nome, só que em uma versão cantada por Paulo Sérgio e Ângela Valle, irmãos de Marcos.

"Garra" é um dos discos mais celebrados de Marcos Valle, por hora político, por hora otimista, o álbum permanece como uma das maiores pérolas da música brasileira e é uma das melhores portas de entrada para a vasta discografia deste que é um dos melhores compositores que este país já viu.

As publicações de textos e vídeos no site do 80 Minutos representam exclusivamente a opinião do respectivo autor


Compartilhar

Comentar via Facebook

IMPORTANTE: Comentários agressivos serão removidos. Comente, opine, concorde e/ou discorde educadamente.
Lembre-se que o site do 80 Minutos é um espaço gratuito e aberto para que o autor possa dar a sua opinião. E você tem total liberdade para fazer o mesmo, desde que seja de maneira respeitosa.